Programa nuclear secreto

Em novembro de 1990, o general Danilo Venturini, que foi chefe do Gabinete Militar do presidente João Figueiredo (1979-85) e secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional nesse período, admitiu, pela primeira vez, que o CSN foi o responsável pelo início da construção de um poço na Serra do Cachimbo, no Pará, projetado para testes com explosivos, “inclusive nucleares”.

Segundo Venturini, o programa nuclear paralelo visava o desenvolvimento de explosivos nucleares “para fins pacíficos”, a serem usados em grandes obras de engenharia. O poço serviria para testar os artefatos nucleares, além de outros explosivos.

A construção do poço foi iniciada em 1983, no governo Figueiredo, e concluída em 1986, na administração José Sarney. A obra foi financiada com recursos do programa nuclear paralelo. Segundo uma CPI que funcionou na Câmara Federal, em 1990, os custos atingiram 500 milhões de dólares.

As contas (denominadas delta 3 e 4) desses recursos eram sigilosas. Elas vinham da “reserva de contingências que o presidente tem liberdade de uso, conforme dotação do Congresso ao aprovar o orçamento da União”, segundo Venturini.

O general informou ainda à Comissão Parlamentar de Inquérito que em 1984 o Brasil importou entre 200 e 300 quilos de hexafluoreto de urânio (um gás) para o programa. Mas não quis revelar o país de origem, alegando que o sigilo era um dos termos do contrato de fornecimento. Disse também ignorar se alguém teria proposto ao presidente Figueiredo a fabricação da bomba nuclear.

(Folha de S. Paulo, São Paulo/SP, 29/11/1990)