A colonização da Amazônia

Estagiários da Escola Superior de Guerra percorreram, durante uma semana, oito mil quilômetros da Amazônia para avaliar a ofensiva que o governo estava então desencadeando para tirá-la do isolamento, integrá-la à economia brasileira e desenvolvê-la.

O motivador foi a seca no Nordeste em 1970, que emocionou o presidente Emílio Garrastazu Médici e o fez determinar um esforço concentrado do governo para a construção de duas estradas, a Transamazônica e a Santarém-Cuiabá, e um programa de colonização baseado na emigração de nordestinos para a Amazônia.

O ministro da agricultura, Cirne Lima, preparou um detalhado plano de colonização: cada trabalhador da estrada receberia um lote de 100 hectares, estabelecido em loteamentos que seriam abertos à margem da rodovia. Uma faixa com cinco quilômetros de profundidade a partir do leito da estrada seria reservada para proteção ecológica.

Em seguida, haveria uma “zona de influência”, com 100 quilômetros de extensão, na qual o governo estabeleceria projetos privados de colonização e agropecuária.

Agindo assim, o governo esperava acabar com “três séculos de abandono total”, segundo o comandante militar da Amazônia, general Nogueira da Paz: “nos restarão apenas três lustros para ocupar efetivamente a Amazônia, se quisermos ser donos da casa”, disse ele, criticando a pequena presença nacional na região.

O Pará possuía 1,2 milhão de quilômetros quadrados (“suas terras, de um modo geral, são férteis”) para apenas 1,2 milhão de habitantes, observava o ministro Cirne Lima. Roraima tinha um território maior do que o de seis Estados brasileiros para 48 mil habitantes.

Um importante papel catalisador nessa nova realidade iria ter o Exército, através dos seus batalhões de engenharia de construção. Em Roraima estava o 6º BEC, que, além de responsável pela ligação entre Boa Vista e Manaus, estava construindo cerca de mil casas.

Em Rondônia ficava o 5º BEC, que consolidou a BR-364, ligando Porto Velho a Cuiabá, mas também intervinha como conciliador entre garimpeiros e mineradores, construíra 400 casas e instalara o sistema de captação de água de Porto Velho.

Fonte: Veja (São Paulo/SP), 08/07/1970