A descarga do rio Amazonas

Um grupo de geólogos americanos refez, em 1971, a medição da descarga líquida do rio Amazonas efetuada pela primeira vez em 1963, a pedido do governo brasileiro. Em agosto de 1972, um dos integrantes da equipe, o hidrólogo George F. Smoot, anunciou o principal resultado do trabalho: o Amazonas despeja no Atlântico 254 milhões de metros cúbicos de água por segundo, o equivalente a 15% da soma das contribuições de todos os rios do planeta aos oceanos.

Nessa época, o governo brasileiro teria planos a longo prazo para o aproveitamento do potencial hidrelétrico do rio. A medição do Amazonas foi realizada no estreito de Óbidos, no Pará, a 640 quilômetros de sua desembocadura.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 11/08/1972

O Brasil e os grandes lagos

Por causa do impacto que a apresentação do projeto sobre um sistema de grandes lagos na América Latina, tendo como um dos principais eixos o Brasil e sua bacia amazônica, o Ministério das Relações Exteriores realizou, em 1967, um levantamento confidencial sobre o Hudson Institute, de Nova York, que formulou os projetos.

Três diplomatas brasileiros, encarregados pelo Itamaraty de preparar um relatório reservado sobre o tema, descobriram que o Hudson era uma entidade de pesquisa e planejamento de política internacional e dos problemas de segurança dos Estados Unidos.

Caracterizada como entidade privativa sem fins lucrativos, trabalhava em estreita vinculação com o governo americano. Mais de 85% do seu orçamento provinham então de contratos com agências oficiais dos EUA, especialmente com o Departamento de Defesa.

O autor dos projetos dos lagos latino-americanos era Robert Panero, americano, mas de origem colombiana, que recebeu o apoio de Herman Kahn, diretor do Hudson. O instituto gozava de prestígio junto à Comissão Interamericana da Aliança para o Progresso e aos governos da Colômbia e do Peru. Apresentara às autoridades colombianas o projeto de criação de um canal-lago transoceânico na região do Chocó.

O único contato oficial do Hudson no Brasil era, na ocasião, com o ministro do planejamento, Roberto Campos. Mas para os estudos que estava realizando o instituto americano contava com dois consultores privados: Eudes Prado Lopes e Felisberto Camargo.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 14/07/1968

Rockefeller e a Amazônia

Na sua campanha para a presidência dos Estados Unidos, em 1968, o governador de Nova York, Nelson Rockefeller disse que, se eleito, apoiaria um programa que incluía a construção de um gigantesco mar interior na América Latina, um canal interoceânico e uma via fluvial ligando o Caribe à Bacia do Prata.

O primeiro e mais dramático desses projetos era o barramento do rio Amazonas para a criação de um lago artificial duas vezes maior do que a Alemanha. O segundo em importância era a interconexão dos rios Orenoco, Amazonas, Paraguai e Prata, permitindo a navegação de alto bordo pelo interior da Venezuela, Colômbia, Brasil, Paraguai e Argentina. O terceiro era um projeto colombiano destinado a reter 400 polegadas de chuva, que caem anualmente na região, criando um lago artificial.

Rockefeller estava endossando  projetos que vinham sendo desenvolvidos pelo Hudson Institute, de Nova York, uma corporação que executava estudos estratégicos sob contrato para o Departamento de Defesa americano.

Segundo o Hudson, o canal interior sul-americano poderia ser desencadeado a partir de um pequeno lago na região colombo-venezuelana  de Pimichin, unindo o Orenoco ao rio Negro, um dos maiores tributários do Amazonas. Da mesma forma, o rio Guaporé poderia ser ligado ao sul, por uma serie de lagos, ao rio Paraguai, chegando até o Atlântico, através do Paraná e do Prata.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 23/07/1968

Os prejuízos dos grandes lagos

Em agosto de 1968, ao depor na CPI da Câmara Federal sobre os Grandes Lagos, o subchefe do Estado Maior da Armada, almirante Mário Rodrigues da Costa, afirmou que o projeto, concebido pelo Hudson Institute, dos Estados Unidos, era ” inadequado e inaceitável sob o ponto de vista do interesse nacional”.

Argumentou que a navegação fluvial, além de não obter grandes melhorias com o represamento do rio Amazonas, proposto pelo Hudson, seria prejudicada porque as redes dos afluentes ficaram isoladas entre si, não permitindo o acesso de navios de grande calado, que já chegavam até Manaus ou mesmo Iquitos, na fronteira com a Colômbia, nas condições naturais.

Apontou também para os “numerosos riscos representados pelo eventual rompimento de uma barragem no local previsto nos planos”. Enfatizou os inconvenientes que os próprios autores da ideia, Herman Kahn e Robert Panero, haviam admitido: inundação da quase totalidade das terras amazônicas de valor agrícola, destruição de atividades produtivas então essenciais, como borracha e juta, e o alagamento de centros urbanos como Santarém, Parintins, Itacoatiara, Moura, Tefé e grande parte de Manaus, segundo o mapa traçado pelo engenheiro Felisberto Camargo por encomenda do Hudson.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 29/08/1968

Os Grandes Lagos

O projeto dos Grandes Lagos Amazônicos foi apresentado publicamente, pela primeira vez, em 1965. Seus idealizadores, Herman Kahn e Robert Panero, diretores do Hudson Institute, de Nova York, escreveram um artigo a respeito no anuário Progresso, editado no México pelo grupo Vision. Um dos conselheiros especiais do anuário era o economista e diplomata brasileiro Roberto Campos, nessa época ministro do planejamento do governo Castelo Branco.

Em seguida o projeto seria apresentado ao governo brasileiro. Ele propunha interligar as bacias do Amazonas, Orenoco e Prata, através da criação de imensas barragens. Os grandes lagos que elas formariam poderiam possibilitar a geração de energia e a colonização, mas inundariam muitas cidades da região.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 03/09/1968

Índios atingidos por mercúrio

Uma pesquisa realizada por Antônio Carneiro Barbosa, professor do Departamento de Química da Universidade de Brasília, mostrou que a maioria dos índios kayapó, do sul do Pará, haviam sido contaminados pelo mercúrio usado nos garimpos da região. O pesquisador apresentou os resultados da pesquisa durante o 32º Congresso Brasileiro de Química, realizado em Belém, em outubro de 1992.

Barbosa analisou 126 amostras de sangue, 178 de urina e 203 de cabelos dos índios, que habitavam principalmente as aldeias Gorotire e Kikretum, às margens do rio Fresco. A contaminação era feita principalmente através dos peixes desse rio, base da alimentação das tribos, que absorviam o mercúrio nas águas, transformando-o em metilmercúrio.

O percentual de contaminação por mercúrio no sangue atingiu níveis acima do limite crítico estabelecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 50,5% dos índios da aldeia Gorotire e em 85.7% dos kayapó da aldeia Kikretum.

Nos garimpeiros, esse percentual foi de 33,3%. Na urina, os percentuais foram de 35,7%, 9,3% e 37,6%, respectivamente. A contaminação encontrada no cabelo foi de 30,5% na aldeia Gorotire, 51,1% na aldeia Kikretum e de 0,8% entre os garimpeiros.

O pesquisador também constatou elevados índices de contaminação entre os moradores das margens do rio Madeira, onde fez outro levantamento sobre o uso do mercúrio por garimpos.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 29/10/1992

Água no Marajó

Em 1959, a ligação do rio Arari com o lago do mesmo nome, na ilha de Marajó, no Pará, ficou interrompida por causa do acúmulo de vegetação e de detritos no canal. A desobstrução só foi possível com o uso de uma draga do Departamento de Portos, Rios e Canais e a ajuda da Força Aérea Brasileira. O problema se repetiria, apesar de a SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia) destinar recursos para a regularização do regime de águas do Marajó.

(Folha do Norte, Belém/PA, 26/07/1959)