Mortes por agrotóxico

Em abril de 1984, o médico Motomo Arakava se apresentou aos jornais para testemunhar que atendeu os primeiros casos de intoxicação em Tailândia, no Pará, em consequência da aplicação de agrotóxicos ao longo da linha de transmissão de energia de Tucuruí, entre novembro de 1981 e abril de 1982.

Em fevereiro de 1982, foram registradas duas mortes de pessoas com sinais de intoxicação. Uma criança morreu depois de comer farinha, segundo o relato do pai, José Ferreira, atendido por Motomo. O cunhado do proprietário de uma serraria em Tailândia, morreu vomitando, devido a perfurações na alça intestinal.

Nas mesmas condições morreu Romualdo Kerber, igualmente atendido por Motomo. Ele disse que desconfiou do uso de agrotóxico, mas não sabia onde e nem qual fazendeiro estava aplicando o veneno.

(O Liberal, Belém/PA, 10/04/1984)

Açúcar na Transamazônica

Entre 1971 e 1973, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) construiu na Transamazônica, no Pará, a 100 quilômetros de Altamira, uma usina de açúcar e álcool que passou a ser conhecida como Pacal (Projeto Agro-Canavieiro Abraham Lincoln, mais tarde rebatizada para Usina Henrique Silva Dantas, em homenagem ao pioneiro que introduziu o plantio de cana na região).

A usina foi inaugurada simbolicamente no início de 1974 porque ainda não havia então cana de açúcar para moer. Seu funcionamento efetivo só ocorreu um ano depois, quando a empresa Zanini concluiu as obras.

Em 1976, o Incra criou O grupo de Trabalho Pacal para conduzir a implantação do projeto, com o plantio de 1.200 hectares de cana destinada à produção de álcool carburante. Em 1977 foram plantados mais 1.800 hectares. Em 1978 o total da área plantada já era de 10.600 hectares.

Em janeiro de 1979 o Incra emancipou o projeto. Nesse ano a Cotrijuí, cooperativa agrícola do Rio Grande do Sul, recebeu do governo federal concessão sobre uma área de 400 mil hectares, contígua ao Pacal, onde pretendia assentar 10 mil famílias de agricultores, mas a concessão foi cancelada porque a terra foi considerado de domínio dos índios Arara.

A Cotrijuí se interessou então em ficar com o Pacal, mas, depois de duas safras, devolveu o projeto ao Incra e se retirou da área. O Incra vendeu o projeto à Construtora e Incorporadora Carneiro da Cunha Nóbrega Ltda. (Conan), que comandou as safras de 1981 e 1982.

Em 1982, as relações com os produtores se deteriorou porque eles não foram pagos. A Conan também se retirou do projeto e ainda acionou o Incra na justiça, pedindo rescisão do contrato e indenização.

Através da Associação dos Fornecedores de Cana da Transamazônica (Asfort), os colonos exigiram que o governo reassumisse o controle do patrimônio, concedido pela justiça, em agosto de 1987. Em março de 1986 foi a Cooperativa Integral de Reforma Agrária (Cira), que ficou com o controle do Pacal.

(O Liberal, Belém/PA, 04/12/1987)

Posseiro morto na fazenda

No final de fevereiro de 1989, foi assassinado, com um tiro de revólver 38, Miguel Capixaba, ocupante da Fazenda Marajoara, em Xinguara, no sul do Pará. A fazenda fora desapropriada no ano anterior pelo Mirad (Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário). Um pouco antes da desapropriação, a Polícia Federal esteve no local para apurar denúncias de assassinato e tortura, encontrando orelhas humanas dentro de vidros com formol. A fazenda pertencia a Manezinho Sá. O Mirad desapropriou apenas parte da fazenda, com 350 hectares.

(O Liberal, Belém/PA, 03/08/1989)

Búfalos na Amazônia

A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) estimava, em 1983, o rebanho de búfalos na Amazônia em 600 mil cabeças, concentradas no Pará. Com a taxa de crescimento regional, de 10% ao ano, o efetivo deveria atingir 60 milhões de cabeças em 2031, igualando-se à população bubalina da Índia, a maior do mundo.

O melhor local para o desenvolvimento do criatório são as extensas áreas de pastagens nativas localizadas nas várzeas inundáveis, estimadas em 11 milhões de hectares. Na Amazônia existem todas as quatro raças bubalinas: mediterrâneo, murrah, jafarabadi e carabao. Os dados da Embrapa revelavam a vantagem da criação do búfalo sobre os bovinos.

Enquanto entre os bois a taxa de natalidade é de 40% a 50%, entre os bubalinos ela vai de 60% a 70%; a incidência de mortes até se completar um ano entre os bovinos é de 10% a 11%, a dos bubalinos fica entre 5% e 6%: o bovino bom para abate está entre 320 e 370 quilos, enquanto o búfalo alcança entre 300 e 400 quilos; a idade de abate entre os bovinos fica entre 3,5 e 5 anos, e a dos bubalinos se situa entre 2 e 3 anos.

Até a metade da década de 80 a Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) havia aprovado a implantação de fazendas de búfalo que previam a criação de mais de 50 mil animais, em aproximadamente 80 mil hectares de pastagens.

((Diário do Pará, Belém/PA, 21/02/1985))

Polícia prende polícia

O delegado da polícia civil do Pará no garimpo de Serra Pelada, Édson Oliveira Ferreira, e os investigadores Paulo Gomes da Silva e José Silva, foram presos, em dezembro de 1987, por um delegado e quatro agentes da Polícia Federal. Ao ser preso e algemado, o delegado estava com uma substância conhecida como bucha, que era vendida na região como se fosse ouro por sua semelhança com o metal.

Os agentes federais, armados de metralhadora, acusaram o delegado da polícia civil de enganar os garimpeiros, prendendo-o, junto com os investigadores, no quartel do 4º Batalhão da Polícia Militar, em Marabá. No mesmo dia os três foram soltos, graças a um mandado judicial, e retornaram a Serra Pelada.

O comandante da PM, tenente-coronel Reinaldo Pessoa Chaves, disse que a prisão fora ilegal porque a bucha estava dentro de uma repartição pública, depois de ter sido apreendida pelo delegado, que a mantivera guardada à espera de reclamação/ Atribuiu o incidente à “incompatibilidade que sempre existiu entre as polícias federal e estadual”.

(O Liberal, Belém/PA, 22/12/1987)

Macuxis são presos

Em julho de 1987, o juiz da 1ª circunscrição de Roraima, Antônio Ferreira Anunciação Neto, determinou a prisão de 14 índios da tribo macuxi. Eles foram acusados de agredir e deter por 16 horas três funcionários da Fazenda Guanabara, no município de Normandia, no norte do então Território Federal (hoje Estado).

O episódio resultou de uma antiga disputa entre os índios da maloca Santa Cruz, habitada por 100 macuxis, e os proprietários da fazenda, que bloquearam o único acesso dos índios, obrigando-os a enfrentar uma montanha íngreme para chegar à sua terra. Os índios foram libertados graças a um habeas corpus. Outros cinco índios foram presos e deixados sob a custódia da Funai.

(Jornal do Brasil, Rio de Janeiro/RJ, 28/07/1987)

Blitz em fazendas

Entre dezembro de 1986 e janeiro de 1987, a Polícia Federal realizou sua quarta Operação Bico do Papagaio, destinada ao desarmamento no sul do Pará e parte de Goiás (atual Tocantins) e Maranhão. Durante oito dias a operação mobilizou 20 agentes, delegados e escrivães, que apreenderam 45 armas de fogo de vários calibres, 20 das quais encontradas na Fazenda das Tartarugas, de propriedade dos irmãos Adão e Raimundo Modesto.

Todas as armas apreendidas estavam em poder de fazendeiros e seus empregados. A polícia também encontrou duas orelhas humanas, conservadas em frascos com uma substância que parecia ser formol, na Fazenda Marajoara, a 100 quilômetros de Redenção, no sul do Pará. O proprietário da fazenda, Manuel de Sá Júnior, mantinha as orelhas como uma espécie de troféu.

A operação policial constatou ainda um caso de trabalho escravo, na Fazenda Santa Luzia, em Redenção, onde o proprietário, identificado como Adão Garcia, mantinha oito pessoas presas sob regime de escravidão.

(O Liberal, Belém/PA, 07/01/1987)