O “olheiro” de Washington

O coronel Vernon Walters, adido militar da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, gastou quatro dias e meio, em janeiro de 1965, no percurso de Brasília a Belém pela BR-14, a estrada construída pelo presidente Juscelino Kubitscheck para ligar pela primeira vez, por terra, a Amazônia ao restante do Brasil.

Já em Belém, o militar disse que percorrer a Belém-Brasília foi a maior emoção da sua vida desde a Segunda Guerra Mundial, da qual participou como elemento de ligação entre as tropas brasileiras e o comando americano, nas operações realizadas na Itália.

Por causa do seu desempenho, Walters recebeu várias condecorações, entre as quais a Cruz de Combate, que lhe foi conferida pelo governo brasileiro. Várias vezes acompanhou presidentes e autoridades brasileiras em visita aos EUA, servindo também de intérprete para os presidentes Truman e Eisenhower nas visitas que fizeram ao Brasil.

O adido americano elogiou as condições de tráfego da estrada, de terraplenagem primária, que lhe permitiram sempre desenvolver a velocidade de 80 quilômetros por hora em seu jipão, e da infraestrutura de apoio já existente em seu percurso, tornando desnecessária a carga que levara, inclusive com gasolina.

Opinou que o programa Aliança para o Progresso devia dar apoio integral à rodovia, que iria permitir à Amazônia se libertar do isolamento em que estava, sendo “o maior empreendimento brasileiro do século XX”. Acrescentou que gostaria de rever a região 10 anos depois, para comprovar essa opinião.

Confessou que sua maior emoção durante a viagem, em companhia de dois outros oficiais americanos, que estavam fazendo curso no Brasil, foi descobrir a existência, em Goiás, de uma cidadezinha denominada Presidente Kennedy.

(Folha do Norte, Belém/PA, 19/01/1965)

Médici na Transamazônica

O presidente Emílio Garrastazu Médici visitou pela primeira vez a Amazônia, em 9 de outubro de 1970, para dar início, em Altamira, no Pará, à construção da rodovia Transamazônica.

Seria “uma arrancada histórica para conquista e colonização desse gigantesco  mundo verde”, conforme a inscrição de uma placa de bronze que foi encravada no tronco de uma árvore, a 6 quilômetros de Altamira, centro da colonização, então uma cidade com 15 mil habitantes.

Em setembro de 1971, Médici voltou à região para percorrer uma parte do trecho já aberto da estrada. E em 27 de setembro de 1972 comandou a solenidade de inauguração do primeiro grande segmento da estrada, entre os rios Tocantins e Tapajós, “traduzindo a determinação do povo brasileiro de construir um grande e vigoroso País”, conforme os dizeres de uma nova placa de bronze, afixada no mesmo local, transformado em praça-monumento. Esse trecho tinha 1.253 quilômetros, entre Estreito, no Maranhão, e Itaituba, no Pará, inteiramente terraplanados, pista de mão dupla, com uma plataforma de 8.60 metros.

O presidente também inaugurou a Agrovila Brasil Novo, no km 50, pernoitando com sua comitiva no motel construído pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Antes de inaugurar a Transamazônica, Médici esteve em Santarém para inspecionar as obras do porto local e a abertura da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163).

(Folha do Norte, Belém/PA, 01/10/1972)

Petrobrás no Tocantins

Em 1960 a Petrobrás iniciou perfurações no rio Tocantins, na área do município de Imperatriz, no Maranhão, e em Baião e Bailique, no Pará. Em Imperatriz foi utilizada uma sonda que atuara até então na ilha Mexiana, no arquipélago do Marajó, sem sucesso.

O transporte de 400 toneladas de equipamento foi realizado através da rodovia Belém-Brasília, recém-inaugurada. A Rodobrás, que construiu e mantinha a estrada, deu apoio a dois acampamentos que a Petrobrás instalou às margens da rodovia.

(Folha do Norte, Belém/PA, 26/10/1960)

Colonização na Transamazônica

Em julho de 1971, o presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), José de Moura Cavalcanti, anunciou que em três anos, até 1974, 100 mil famílias de colonos estariam assentadas ao longo da Transamazônica, principalmente num polígono de terras Altamira, no Pará, com solos de alta fertilidade.

A média seria de seis mil famílias assentadas por mês. Cada uma delas receberia do Incra um lote de 100 hectares, uma casa de 52 metros quadrados e um salário mínimo durante seis meses. O instituto custearia todas as despesas de recrutamento e transferência de colonos.

Eles receberiam na Transamazônica financiamento do Banco do Brasil, principalmente para cultivos de café e cacau, com carência de três anos e oito para quitar a dívida. Todas as famílias teriam acesso à educação nos seus lotes.

(Folha do Norte, Belém/PA, 16/07/1971)

Doença mata índios

Um surto de gripe e de sarampo matou mais de 100 índios xavantes que viviam na região de Sangradouro, em Mato Grosso, em agosto de 1972. Epidemias desse tipo passaram a surgir com mais intensidade na região com a rodovia BR-080, ligando Brasília a Cuiabá e atravessando as terras dos bororos e dos xavantes.

A partir de então, os índios começaram a viajar para as cidades, trazendo, na volta, doenças contagiosas, logo transmitidas aos demais. Os bororos foram atacados em massa pela tuberculose, que foi constatada em 400 índios da tribo.

Já na época reduzidos a algumas centenas de indivíduos, os bororos formaram o maior contingente indígena do país. Espalhavam-se desde o Pantanal mato-grossense, na fronteira com a Bolívia, até o Triângulo Mineiro.

(O Estado de S. Paulo, São Paulo/SP, 07/08/1972)

Banco Mundial em Rondônia

Em abril de 1990 o Banco Mundial decidiu suspender, por seis meses, um empréstimo de 220 milhões de dólares destinado ao Projeto de Manejo dos Recursos Naturais de Rondônia, uma das bases de apoio ao Panafloro, destinado à reforma ambiental de Rondônia e Mato Grosso.

A causa do adiamento foi uma carta pessoal do secretário nacional de meio ambiente, José Lutzenberger, ao presidente do BIRD, Barber Conable, pedindo que antes as organizações não governamentais fossem consultadas.

O Panafloro começou a ser elaborado em 1986. Seu objetivo era o de reorientar a ocupação desordenada de Rondônia, que, em duas décadas, destruiu 42 mil quilômetros quadrados de floresta (17% do território do Estado) e provocou o inchamento da periferia de Porto Velho.

Baseado em um zoneamento agroecológico, o projeto previa a divisão de Rondônia em seis zonas: duas para desenvolvimento agrícola, três para extrativismo e preservação florestal e uma para reservas indígenas. Das 17 áreas indígenas criadas em Rondônia como condição imposta pelo Banco Mundial para financiar o Polonoroeste, 10 anos antes, 10 ainda não tinham sido regularizadas em 1990, quando o BIRD decidiu suspender a votação de um novo empréstimo.

(Folha de S. Paulo, São Paulo/SP, 08/04/1990)