Bispo nu?

Durante todo o tempo em que responderam a processo perante a justiça militar do Pará, os padres franceses Aristide Camio e François Gouriou permaneceram presos no quartel do 2º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército, em Belém. Antes da condenação dos dois, as visitas podiam ser feitas duas vezes por semana, duas horas de cada vez, e o arcebispo coadjutor de Belém, d. Vicente Zico, podia visitar a ambos em qualquer dia.

Após a condenação, as visitas passaram a ser feitas apenas uma vez por semana, durante uma hora. D. Zico perdeu o privilégio e, em agosto de 1986, viu-se envolvido em um incidente. O soldado responsável pela revista dos visitantes exigiu que o arcebispo se despisse, como os demais, obrigados a tirar até as cuecas. Indignado, d. Zico se recusou a submeter-se à exigência e retirou-se.

O arcebispo de Belém, d. Alberto Ramos, emitiu uma nota oficial condenando a atitude. Mas o comandante da 8ª Região Militar, general Waltencir Costa, negou que a exigência tivesse sido feita ao religioso.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 07-08-1986

Desfeita a venda de Carajás

Em 1977, o governo do Pará teve que interromper um processo de venda das terras de Carajás à Companhia Vale do Rio Doce porque a área, antes sob jurisdição estadual, havia, alguns meses antes, sido federalizada com a decisão do presidente Ernesto Geisel de prolongar – em projeto – a BR-158, de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso, até Altamira, no Pará.

Outra irregularidade foi constatada no processo: a CVRD requereu por compra uma área de 451.200 hectares, na qual implantaria seu projeto de mineração de ferro. O valor foi calculado pelo Iterpa (Instituto de Terras do Pará) em 137 milhões de cruzeiros (valor da época).

Ao examinar a área, entretanto, os técnicos do instituto excluíram 39 mil hectares, por serem terras sob o domínio da União. Mas não reduziram o valor original da venda, resultando diferença de mais de 9 milhões de cruzeiros. Além da identificação do destino dado a esse excesso, foi questionado o adiantamento de 30% que a Vale pagou por conta da operação, dinheiro não devolvido depois que o negócio foi desfeito.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 14-04-1977

Novo Estado

Em outubro de 1987, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, vinculado ao Ministério da Justiça, defendeu a ideia da criação de um novo Estado, como uma forma de conter a violência praticada na disputa pela posse da terra na região.

Os membros do Conselho, que se reuniram em Conceição do Araguaia, admitiram que o governo do Pará estava completamente distanciado dos problemas locais e que a polícia servia aos proprietários particulares.

A necessidade de um novo Estado seria ainda mais reforçada pelo fato de que apenas 6% dos 500 mil habitantes desses municípios eram nativos do Pará. Os demais eram goianos, mineiros, gaúchos, paranaenses e nordestinos.

Fonte: O Liberal (Belém), 08-10-1987

Venda de Carajás à Vale

Em 1975, a Companhia Vale do Rio Doce requereu por compra uma área de terras em Carajás, no sul do Pará, para implantar seu projeto de mineração de ferro. Em outubro de 1977, o então governador Aloysio Chaves autorizou o Instituto de Terras do Pará a fazer a venda. Três meses antes, o presidente Ernesto Geisel havia baixado decreto autorizando o prolongamento da BR-158, o que provocaria a federalização de 98% da área de Carajás que estava sendo negociada. O governador paraense tentou manter a transação, considerando-a uma forma de indenização pelos prejuízos causados ao Estado.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 18-03-1977

Padre expulso do Brasil

Em dezembro de 1976, o vigário de Vila Rondon, no Pará, padre Giuseppe Fontanella, foi expulso do Brasil. A acusação oficial apresentada era a de que se encontrava em situação irregular no país, mas o objetivo seria político: intimidar a ala da Igreja que se chocava com o governo.

Durante os oito anos em que esteve no Brasil, o padre tentou sem sucesso transformar seu visto de turista em autorização para morar no país. Depois de ser interrogado durante dois dias, por mais de 11 horas, no quartel da 8ª Região Militar do Exército, em Belém, por dois coronéis e um major, o padre recebeu prazo de três dias, posteriormente prorrogado para oito, para deixar o Brasil. Um agente da Polícia Federal o acompanhou de Belém ao Rio de Janeiro, de onde seguiu para a Europa.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 01-01-1980.

Padre demente acusação à Igreja

Em novembro de 1976, o jornal Correio Braziliense publicou uma entrevista com o padre Florentino Maboni, na qual ele dizia que a Igreja da Amazônia estava infiltrada por esquerdistas e que sua pastoral era subversiva. Um mês depois, em carta enviada à Regional Norte II da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o padre, que já se encontrava na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, depois de permanecer um mês preso no Pará, esclareceu que as declarações publicadas na entrevista eram “um punhado de coisas truncadas e distorcidas que não refletem o que eu respondia nos vários interrogatórios e menos ainda o que penso”.

Informava ainda que haviam sido feitos “acréscimos de termos importantes e comprometedores, que eu não usei e jamais pensaria em acusar a Igreja como tal”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 01-01-1980.

 A subversão do capelão militar

O padre Florentino Maboni, enquadrado na Lei de Segurança Nacional sob a acusação de incitar posseiros a atacar tropa da Polícia Militar, havia sido distinguido na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, com a medalha do Pacificador pelos relevantes serviços prestados à guarnição militar ali sediada como radioamador.

De 1960, quando se ordenou sacerdote, até julho de 1976, quando foi transferido para Marabá, ele atuou em Santo Ângelo e Uruguaiana, na fronteira gaúcha, com “conduta irrepreensível”, conforme atestou o arcebispo de Porto Alegre, d. Vicente Scherer, de posição conservadora.

Sua transferência para Marabá tinha sido temporária, dentro do programa igrejas-irmãs. Em setembro, um mês antes de ser preso, ele foi para Conceição do Araguaia. ”

Fonte: O Liberal (Belém), 01-01-1980.