Doença e conflito em Tucuruí

Com a formação do reservatório da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, em 1984,muitas árvores ficaram submersas, causando a formação de gases em virtude de seu apodrecimento. Uma das consequências desse fenômeno foi o aparecimento de moscas hematófagas, que passaram a atacar a população das margens do lago artificial. Cada morador podia chegar a sofrer 500 picadas por hora dessas moscas, segundo pesquisa feita na área pelo Instituto Evandro Chagas, de Belém.

Em 1991, o governo federal decretou estado de emergência nas glebas Parakanã, Pucuruí e Tucuruí, para onde foram remanejados lavradores das áreas alagadas. Em setembro de 1992, o Incra criou o Projeto de Assentamento Rio Gelado, no qual 1.250 famílias se estabeleceram. Mas logo se desencadeou um conflito entre os assentados e a madeireira Abrolho Verde.

Com um projeto de manejo florestal aprovado pelo Ibama, a empresa penetrou nas glebas dos agricultores para extrair madeira, principalmente mogno. Vários atritos ocorreram entre as partes a partir de então.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 17/03/1995

O projeto do grande lago

Os estudos do Hudson Institute, de Nova York, sobre a formação de grandes lagos interiores na América do Sul foram submetidos à apreciação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 6 de novembro de 1964, após seis meses de trabalho, sob o comando de Robert Panero.

Em fevereiro de 1967, o documento foi apresentado pela primeira vez a uma autoridade brasileira, o economista Roberto Campos, que então chefiava o Ministério do Planejamento e Coordenação Econômica.

A proposta do Hudson era formar cinco lagos artificiais, que ligariam as grandes bacias do continente sul-americano, estabelecendo uma ligação Norte-Sul por dentro, sem depender do mar. A ligação mais ao norte seria entre os rios Orenoco, na Venezuela, e Negro, no Brasil, com o que seria possível navegar de Manaus até Caracas. Também seriam feitas barragens nos rios Caquetá, na Colômbia, e Ucaiali, no Peru.r

Na altura de Óbidos, no Pará, uma outra barragem conteria a corrente do rio Amazonas, inundando uma área que iria além do oeste de Manaus, com extensão de mil quilômetros, atingindo as bacias do Negro, Madeira e Caquetá.

Mais ao sul, um novo lago seria formado entre as nascentes dos rios Guaporé e Paraguai, completando assim a ligação Norte/Sul do continente, entre a foz do Orenoco, na Venezuela, e a foz do Paraná/Paraguai, entre Argentina e Uruguai.

O investimento total nesse sistema era calculado pelo Hudson, na época, entre um mínimo de 215 milhões de dólares e o máximo de US$ 430 milhões.

Fonte: Última Hora (Rio de Janeiro/RJ), 18/01/1968

O Brasil e os grandes lagos

Por causa do impacto que a apresentação do projeto sobre um sistema de grandes lagos na América Latina, tendo como um dos principais eixos o Brasil e sua bacia amazônica, o Ministério das Relações Exteriores realizou, em 1967, um levantamento confidencial sobre o Hudson Institute, de Nova York, que formulou os projetos.

Três diplomatas brasileiros, encarregados pelo Itamaraty de preparar um relatório reservado sobre o tema, descobriram que o Hudson era uma entidade de pesquisa e planejamento de política internacional e dos problemas de segurança dos Estados Unidos.

Caracterizada como entidade privativa sem fins lucrativos, trabalhava em estreita vinculação com o governo americano. Mais de 85% do seu orçamento provinham então de contratos com agências oficiais dos EUA, especialmente com o Departamento de Defesa.

O autor dos projetos dos lagos latino-americanos era Robert Panero, americano, mas de origem colombiana, que recebeu o apoio de Herman Kahn, diretor do Hudson. O instituto gozava de prestígio junto à Comissão Interamericana da Aliança para o Progresso e aos governos da Colômbia e do Peru. Apresentara às autoridades colombianas o projeto de criação de um canal-lago transoceânico na região do Chocó.

O único contato oficial do Hudson no Brasil era, na ocasião, com o ministro do planejamento, Roberto Campos. Mas para os estudos que estava realizando o instituto americano contava com dois consultores privados: Eudes Prado Lopes e Felisberto Camargo.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 14/07/1968

Rockefeller e a Amazônia

Na sua campanha para a presidência dos Estados Unidos, em 1968, o governador de Nova York, Nelson Rockefeller disse que, se eleito, apoiaria um programa que incluía a construção de um gigantesco mar interior na América Latina, um canal interoceânico e uma via fluvial ligando o Caribe à Bacia do Prata.

O primeiro e mais dramático desses projetos era o barramento do rio Amazonas para a criação de um lago artificial duas vezes maior do que a Alemanha. O segundo em importância era a interconexão dos rios Orenoco, Amazonas, Paraguai e Prata, permitindo a navegação de alto bordo pelo interior da Venezuela, Colômbia, Brasil, Paraguai e Argentina. O terceiro era um projeto colombiano destinado a reter 400 polegadas de chuva, que caem anualmente na região, criando um lago artificial.

Rockefeller estava endossando  projetos que vinham sendo desenvolvidos pelo Hudson Institute, de Nova York, uma corporação que executava estudos estratégicos sob contrato para o Departamento de Defesa americano.

Segundo o Hudson, o canal interior sul-americano poderia ser desencadeado a partir de um pequeno lago na região colombo-venezuelana  de Pimichin, unindo o Orenoco ao rio Negro, um dos maiores tributários do Amazonas. Da mesma forma, o rio Guaporé poderia ser ligado ao sul, por uma serie de lagos, ao rio Paraguai, chegando até o Atlântico, através do Paraná e do Prata.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 23/07/1968

Os prejuízos dos grandes lagos

Em agosto de 1968, ao depor na CPI da Câmara Federal sobre os Grandes Lagos, o subchefe do Estado Maior da Armada, almirante Mário Rodrigues da Costa, afirmou que o projeto, concebido pelo Hudson Institute, dos Estados Unidos, era ” inadequado e inaceitável sob o ponto de vista do interesse nacional”.

Argumentou que a navegação fluvial, além de não obter grandes melhorias com o represamento do rio Amazonas, proposto pelo Hudson, seria prejudicada porque as redes dos afluentes ficaram isoladas entre si, não permitindo o acesso de navios de grande calado, que já chegavam até Manaus ou mesmo Iquitos, na fronteira com a Colômbia, nas condições naturais.

Apontou também para os “numerosos riscos representados pelo eventual rompimento de uma barragem no local previsto nos planos”. Enfatizou os inconvenientes que os próprios autores da ideia, Herman Kahn e Robert Panero, haviam admitido: inundação da quase totalidade das terras amazônicas de valor agrícola, destruição de atividades produtivas então essenciais, como borracha e juta, e o alagamento de centros urbanos como Santarém, Parintins, Itacoatiara, Moura, Tefé e grande parte de Manaus, segundo o mapa traçado pelo engenheiro Felisberto Camargo por encomenda do Hudson.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 29/08/1968

Os Grandes Lagos

O projeto dos Grandes Lagos Amazônicos foi apresentado publicamente, pela primeira vez, em 1965. Seus idealizadores, Herman Kahn e Robert Panero, diretores do Hudson Institute, de Nova York, escreveram um artigo a respeito no anuário Progresso, editado no México pelo grupo Vision. Um dos conselheiros especiais do anuário era o economista e diplomata brasileiro Roberto Campos, nessa época ministro do planejamento do governo Castelo Branco.

Em seguida o projeto seria apresentado ao governo brasileiro. Ele propunha interligar as bacias do Amazonas, Orenoco e Prata, através da criação de imensas barragens. Os grandes lagos que elas formariam poderiam possibilitar a geração de energia e a colonização, mas inundariam muitas cidades da região.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 03/09/1968

A extração de madeira em Tucuruí

Em janeiro de 1980, o IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal) lançou a licitação pública para a extração de cinco milhões de metros cúbicos de madeira de primeira qualidade existentes na área a ser inundada pela barragem da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará.

Essa seria a primeira exploração madeireira em área de reservatório. Mas com as obras seguintes das hidrelétricas de Samuel, Balbina, Xingu, Altamira, Belo Monte e Tapajós, haveria um total de 1,5 milhão de hectares disponíveis e 90 milhões de metros cúbicos de madeira.

A exploração dessas áreas possibilitaria ao Brasil dominar o mercado internacional de madeira durante 20 anos, aproveitando-se a desorganização na produção de países tradicional exportadores, como os do sudoeste asiático e africano, notadamente por motivos políticos.

A exportação de madeira sólida do reservatório de Tucuruí permitiria uma receita de um bilhão de dólares em três anos e mais US$ 1 bilhão com a produção de carvão vegetal a partir dos resíduos de madeira que não puderem ser aproveitados industrialmente.

O IBDF destacava a intenção do governo de não permitir a exportação do produto “in natura”, mas apenas processado industrialmente, na forma de laminados, compensados ou apenas serrados.

FONTE: O Estado do Pará (Belém/PA), 10/01/1980