Acidentes da navegação

Um dos trechos mais perigosos para a navegação na entrada da barra de Belém, a capital do Pará, é no banco do Mandii (ou Mandy), em frente ao farol com o mesmo nome. Esse banco de areia passou a ser conhecido também como do Otelo por causa do acidente ali ocorrido com o navio Otelo, em 11 de novembro de 1912.

A embarcação, de aproximadamente quatro mil toneladas, transportava 400 homens, principalmente cubanos, que iam trabalhar na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O navio encalhou e se partiu ao meio, naufragando em seguida. Mas o “Pará”, do Lóide Brasileiro, conseguiu chegar a tempo ao local para resgatar todos os passageiros e tripulantes.

Outros acidentes foram registrados antes e depois, como o do navio Moa, que naufragou e dele não sobraram nem os destroços. O trecho se tornava mais perigoso para a navegação em noites escuras.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 02/10/1964

O projeto do grande lago

Os estudos do Hudson Institute, de Nova York, sobre a formação de grandes lagos interiores na América do Sul foram submetidos à apreciação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 6 de novembro de 1964, após seis meses de trabalho, sob o comando de Robert Panero.

Em fevereiro de 1967, o documento foi apresentado pela primeira vez a uma autoridade brasileira, o economista Roberto Campos, que então chefiava o Ministério do Planejamento e Coordenação Econômica.

A proposta do Hudson era formar cinco lagos artificiais, que ligariam as grandes bacias do continente sul-americano, estabelecendo uma ligação Norte-Sul por dentro, sem depender do mar. A ligação mais ao norte seria entre os rios Orenoco, na Venezuela, e Negro, no Brasil, com o que seria possível navegar de Manaus até Caracas. Também seriam feitas barragens nos rios Caquetá, na Colômbia, e Ucaiali, no Peru.r

Na altura de Óbidos, no Pará, uma outra barragem conteria a corrente do rio Amazonas, inundando uma área que iria além do oeste de Manaus, com extensão de mil quilômetros, atingindo as bacias do Negro, Madeira e Caquetá.

Mais ao sul, um novo lago seria formado entre as nascentes dos rios Guaporé e Paraguai, completando assim a ligação Norte/Sul do continente, entre a foz do Orenoco, na Venezuela, e a foz do Paraná/Paraguai, entre Argentina e Uruguai.

O investimento total nesse sistema era calculado pelo Hudson, na época, entre um mínimo de 215 milhões de dólares e o máximo de US$ 430 milhões.

Fonte: Última Hora (Rio de Janeiro/RJ), 18/01/1968

Do Amazonas ao Orenoco

Em abril de 1968, um barco hovercraft de 10 toneladas partiu de Manaus, no Estado do Amazonas, para uma histórica viagem de 3.200 quilômetros do rio Amazonas ao Orenoco, na Venezuela, unindo pela primeira vez as duas bacias.

A missão científico-geográfica, com um mês de duração, foi patrocinada pela revista Geographical Magazine, de Londres, sob os auspícios do Duque de Edimburgo. O barco Winchester, de 500 HP, seguiu o curso do rio Negro, a partir de sua confluência com o Amazonas, até a fronteira venezuelana mais meridional, atravessando o Cassiquiare para entrar no Orenoco.

A expedição teve dois objetivos: demonstrar que o hovercraft é capaz de navegar em águas a que só ele podia ter acesso, e fazer estudos científicos e geográficos de uma das regiões menos exploradas do mundo. Os cientistas coletaram amostras de água, estudaram a fisiografia e a flora da região e observaram a vida dos nativos.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 18/04/1968

O Brasil e os grandes lagos

Por causa do impacto que a apresentação do projeto sobre um sistema de grandes lagos na América Latina, tendo como um dos principais eixos o Brasil e sua bacia amazônica, o Ministério das Relações Exteriores realizou, em 1967, um levantamento confidencial sobre o Hudson Institute, de Nova York, que formulou os projetos.

Três diplomatas brasileiros, encarregados pelo Itamaraty de preparar um relatório reservado sobre o tema, descobriram que o Hudson era uma entidade de pesquisa e planejamento de política internacional e dos problemas de segurança dos Estados Unidos.

Caracterizada como entidade privativa sem fins lucrativos, trabalhava em estreita vinculação com o governo americano. Mais de 85% do seu orçamento provinham então de contratos com agências oficiais dos EUA, especialmente com o Departamento de Defesa.

O autor dos projetos dos lagos latino-americanos era Robert Panero, americano, mas de origem colombiana, que recebeu o apoio de Herman Kahn, diretor do Hudson. O instituto gozava de prestígio junto à Comissão Interamericana da Aliança para o Progresso e aos governos da Colômbia e do Peru. Apresentara às autoridades colombianas o projeto de criação de um canal-lago transoceânico na região do Chocó.

O único contato oficial do Hudson no Brasil era, na ocasião, com o ministro do planejamento, Roberto Campos. Mas para os estudos que estava realizando o instituto americano contava com dois consultores privados: Eudes Prado Lopes e Felisberto Camargo.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 14/07/1968

Os prejuízos dos grandes lagos

Em agosto de 1968, ao depor na CPI da Câmara Federal sobre os Grandes Lagos, o subchefe do Estado Maior da Armada, almirante Mário Rodrigues da Costa, afirmou que o projeto, concebido pelo Hudson Institute, dos Estados Unidos, era ” inadequado e inaceitável sob o ponto de vista do interesse nacional”.

Argumentou que a navegação fluvial, além de não obter grandes melhorias com o represamento do rio Amazonas, proposto pelo Hudson, seria prejudicada porque as redes dos afluentes ficaram isoladas entre si, não permitindo o acesso de navios de grande calado, que já chegavam até Manaus ou mesmo Iquitos, na fronteira com a Colômbia, nas condições naturais.

Apontou também para os “numerosos riscos representados pelo eventual rompimento de uma barragem no local previsto nos planos”. Enfatizou os inconvenientes que os próprios autores da ideia, Herman Kahn e Robert Panero, haviam admitido: inundação da quase totalidade das terras amazônicas de valor agrícola, destruição de atividades produtivas então essenciais, como borracha e juta, e o alagamento de centros urbanos como Santarém, Parintins, Itacoatiara, Moura, Tefé e grande parte de Manaus, segundo o mapa traçado pelo engenheiro Felisberto Camargo por encomenda do Hudson.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 29/08/1968

Os Grandes Lagos

O projeto dos Grandes Lagos Amazônicos foi apresentado publicamente, pela primeira vez, em 1965. Seus idealizadores, Herman Kahn e Robert Panero, diretores do Hudson Institute, de Nova York, escreveram um artigo a respeito no anuário Progresso, editado no México pelo grupo Vision. Um dos conselheiros especiais do anuário era o economista e diplomata brasileiro Roberto Campos, nessa época ministro do planejamento do governo Castelo Branco.

Em seguida o projeto seria apresentado ao governo brasileiro. Ele propunha interligar as bacias do Amazonas, Orenoco e Prata, através da criação de imensas barragens. Os grandes lagos que elas formariam poderiam possibilitar a geração de energia e a colonização, mas inundariam muitas cidades da região.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 03/09/1968

O custo de Tucuruí

Em 1890, foi iniciada a construção da Estrada de Ferro do Tocantins, no Pará, destinada a fazer o transporte ao longo de 117 quilômetros, trecho no qual o rio se torna não navegável no verão por causa do afloramento de pedras. A obra só foi concluída em 1944, mas em novembro de 1973 a ferrovia foi extinta pelo governo federal, por ser considerada antieconômica.

Nessa mesma área foi construída a hidrelétrica de Tucuruí, com uma barragem de 80 metros de altura, da fundação à sua crista, com 68 metros de queda. A preços de junho de 1973, a obra deveria custar 1,17 bilhão de dólares, sendo US$ 785 milhões na usina, US$ 95 milhões nas subestações e linhas de transmissão até Vila do Conde, onde seria implantado um polo industrial de alumínio e alumina, e US$ 290 milhões de juros durante a construção. Este seria o custo da primeira etapa da hidrelétrica, com capacidade para 3 milhões de quilowatts. Numa segunda etapa ela deveria ser ampliada para 6,5 milhões de kw.

Fonte: O Globo (Rio de Janeiro/RJ), 15/09/1974