As missões religiosas

Depois de ter recebido denúncias sobre a atuação irregular de missões religiosas estrangeiras na Amazônia, o Ministério do Interior solicitou à Força Aérea Brasileira, em 1968, um levantamento da situação.

No relatório que apresentou, a FAB apontou 19 postos de missões, estabelecidas em vários pontos da região, sobretudo no Estado do Amazonas e Roraima. As principais eram as protestantes americanas, com 10 postos:

1) Posto Uaicá, no Território de Roraima, na margem direita do rio Uraricoera, na Serra do Marutani, da Missão da Cruzada de Evangelização Mundial, uma das representantes no Brasil da Univangelized Fields Missions.

2) Posto Xiriana, também em Roraima, na Serra dos Surucucus, região do Alto Parima, igualmente da Cruzada de Evangelização Mundial.

3) Posto Surucucu, em Roraima, na Serra dos Surucucus, no Alto Parima, da Cruzada Mundial de Evangelização.

4) Posto Anaris, Roraima, na margem do rio Anaris, afluente do Uraricoera, da Cruzada de Evangelização Mundial.

5) Posto Boas Novas, Roraima, na região do rio Ericó, afluente do rio Uraricaá, da mesma Cruzada.

6) Posto Contão, Roraima, na margem do rio Cotingo, da Sociedade Evangelizadora Baptist Mid-Missions.

7) Posto Marauacá, no Estado do Amazonas, na margem direita do rio Totobi, afluente do rio Demeni, a cargo da Missão Novas Tribos do Brasil, apoiada pela Missão Asas do Socorro, que atuava também no Maranhão e em Goiás.

8) Posto Ajuricaba, também no Amazonas, na margem do rio Demini, da Missão Novas Tribos do Brasil.

 9) Posto Uaiuai, no Pará, na margem do rio Cafuiene, um dos formadores do Trombetas, sob a responsabilidade da Cruzada de Evangelização Mundial.

10) Posto Alalaú, no limite entre Roraima e Amazonas, da Cruzada de Evangelização Mundial. Postos das missões franciscanas canadenses.

11) Posto Cururu, no Pará, na margem do rio Cururu, afluente do Tapajós.

12) Posto Tiriós, no Pará, na margem do rio Paru do Oeste. Missões salesianas italianas.

13) Posto Iauretê: no Amazonas, na margem esquerda do rio Uaupés, afluente do Negro, na foz do rio Papuri, na fronteira do Brasil com a Colômbia.

14) Posto Pari-Cachoeira, no Amazonas, na margem do rio Tiquié, afluente do rio Uaupés, próximo à fronteira com a Colômbia.

15) Posto Taraguá, no Amazonas, na margem direita do rio Uaupés, afluente do Negro.

16) Posto São Gabriel, no Amazonas, na margem esquerda do rio Negro, na região das maiores corredeiras.

17) Posto Içana, no Amazonas, à margem direita do rio Içana, afluente do Negro.

18) Posto Barcelos, no Amazonas, na margem direita do rio Negro.

19) Posto Marauiá, no Amazonas, nas margens do rio Maruiá, afluente do Negro.

 Segundo o relatório da FAB, as missões religiosas estrangeiras se estabeleciam sem autorização prévia do governo, alegando que iriam catequizar os índios, recebendo auxílio da própria Força Aérea.

A Missão Novas Tribos do Brasil estava envolvida, na ocasião, em compras irregulares de terras no Maranhão e em Goiás, ‘a frente das quais estava Henry Fuller, presidente da World Land Corporation.

A Missão mantinha um colégio em Puraquequara, ao sul do município de Manaus, no Amazonas, ocupando área de 133 hectares, com 65 alunos americanos, que estudavam línguas indígenas da Amazônia. Concluindo o curso, eram enviados para as missões protestantes.

As missões também contavam com geólogos, geofísicos, botânicos, médicos e dentistas. Dispunham de frotas de barcos e aviões.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 30/06/1968

A lista dos marcados para morrer

Em junho de 1987, o bispo de Bragança, no Pará, dom Miguel Giambelli, denunciou, em carta enviada ao governador do Estado, Hélio Gueiros, ameaças de morte feitas ao vigário do município de Irituia, padre Luiz Carrá, e ao presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Antônio Lopes.

Segundo o bispo, no dia 17 de junho, 10 pessoas – dentre as quais os presidentes dos diretórios municipais do PMDB e PFL, alguns dos quais com mandato eletivo – se reuniram no quilômetro 48 da rodovia Belém-Brasília, em Vila Mãe do Rio, e decidiram eliminar o padre e o dirigente sindical.

Um dos participantes, porém, entregou uma carta assinada e datada dirigida ao bispo, com os nomes de todos os 10 integrantes da reunião, para uso apenas se o crime fosse executado. O padre, um italiano, na época com 48 anos de idade, havia chegado ao Brasil em 1978, trabalhando no município de Paragominas e no Seminário de Bragança. Em 1986 assumiu o vicariato de Irituia.

Na sua carta ao governador, o bispo lembrou o “bárbaro homicídio do então prefeito José Leônidas”, dois anos antes, e o “macabro assassinato do Dr. Paulo Fonteles”, três meses antes.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 26/06/1987

A justiça e o trabalho escravo

Em novembro de 1991, pela primeira vez o Ministério Público denunciou na justiça proprietários de terras que se utilizavam de trabalho escravo.

Raimundo Pereira da Silva, Raimundo Alves da Costa e Ilson Moreira da Silva foram presos em flagrante por manter 126 pessoas sob regime de trabalho forçado nas fazendas Califórnia e São Carlos, próximas do povoado de Sapucaia, no município de Xinguara, no sul do Pará.

Os dois primeiros, ambos fazendeiros, e o terceiro, comerciante, foram denunciados pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) à Procuradoria Geral da República. Ilson mantinha um barracão, para onde os trabalhadores recém-recrutados eram levados. Em dois dias já existia um débito capaz de prender o lavrador e, então, o comerciante entregava os homens aos fazendeiros.

Na maioria dos casos, os salários eram inferiores a um salário mínimo e os lavradores eram obrigados a comprar comida a preços exorbitantes. Os três acusados foram presos.

FONTE: O Liberal (Belém/PA), 15/11/1991

Curió e os padres

Quando estava em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde passava as férias com a família, em outubro de 1981, o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como major Curió, admitiu que conhecia havia mais de 12 anos cinco dos 13 posseiros que participaram de uma emboscada contra funcionários do Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins), em São Geraldo do Araguaia, no sul do Pará.

Do ataque resultou um morto e ferimentos em funcionários do Getat e agentes da Polícia Federal, que davam cobertura a uma missão de demarcação de terras, contestada pelos lavradores. Segundo Curió, os cinco posseiros seus conhecidos já estavam na região há mais de 14 anos, “enquanto os demais são invasores”.

O militar repetiu a acusação de que os posseiros foram incitados a armar a emboscada pelos padres franceses Aristides Camio e François Gouriou, presos com os 13 lavradores e enquadrados por subversão na Lei de Segurança Nacional.

FONTE: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 29/12/1981

Católicos nas Anavilhanas

Em outubro de 1989, vários órgãos da imprensa italiana comentaram a ligação do Pime (Pontifício Instituto Missionário Estrangeiro) e do Movimento Popoplare com outra organização católica, a Comunhão e Libertação, na especulação com terras e num negócio hoteleiro dentro da estação ecológica das Ilhas Anavilhanas, um majestoso arquipélago fluvial localizado a 100 quilômetros de Manaus, no Amazonas.

A iniciativa visaria “encobrir sob o manto da caridade e da religiosidade um empreendimento consumista e capitalista”, segundo editorial da revista Missione Oggi, dos missionários xaverianos. O empreendimento era de Fernando Degan, que havia trabalhado como gerente da indústria de óculos Ialo, em Manaus. Na volta à Itália, ele conseguiu o apoio de outros empresários italianos.

Sua ideia era construir um hotel a 10 quilômetros da estação ecológica, todo em madeira, com não mais do que 1.200 metros quadrados de área construída e outros mil metros quadrados de área adjacente desmatada, mantendo-se preservados oito milhões de metros quadrados. O hotel teria acomodações para 40 ou 60 hóspedes. Custaria 522 mil dólares.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 19/11/1989

Jornal acusa missionários

O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma série de denúncias, em 1987, sobre uma suposta conspiração contra a soberania do Brasil na Amazônia, que motivou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara Federal. Em setembro daquele ano, o diretor-responsável do jornal, Júlio Mesquita Neto, e o diretor de redação, Oliveiros Ferreira, depuseram na CPI, mas não apresentaram documentos comprovando a ligação do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) com o Conselho Mundial de Igrejas Cristãs, que seria o mentor intelectual da trama.

Mesquita explicou que a ligação havia sido “indução nossa”. Esclareceu que o Conselho Mundial de Igrejas citado nas reportagens seria, na verdade, o Conselho Mundial de Igrejas Cristãs, com sede em Genebra, na Suíça. O Cimi negou a existência dessa entidade.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 18/09/1987

Mortandade entre os xikrin

Em 1953, os índios xikrin, do grupo kayapó, instalados às margens do rio Cateté, subafluente do Tocantins, no Pará, tinham uma população de 800 indivíduos. Em 1967. estavam reduzidos a 110, quando a tribo sofreu um surto de tuberculose, provavelmente transmitida por colonos brancos. Vivia entre eles nessa época um missionário, frei José, da Ordem dos Dominicanos.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 13/07/1967