Kayapós contra mineradoras

Em outubro de 1990, 40 índios kayapós da aldeia Kokraimoro, armados, invadiram as sedes das mineradoras São Francisco e Canopus, no município de São Félix do Xingu, no Pará.

Pintados para a guerra, os índios exigiam que as duas empresas lhes pagassem royalties pela exploração de cassiterita, embora estivessem atuando fora da área da reserva kayapó, com 3,2 milhões de hectares. As duas mineradoras se instalaram na área na década de 1970, explorando as minas de cassiterita Mocambo, Bom Jardim e Iriri.

A Rhodia negociou seus direitos minerários sobre as minas com a Caeté Participações, grupo de São Paulo, que tinha na época como um de seus sócios o secretário de planejamento da Presidência da República, Marcos Fonseca. Os índios se irritaram porque a empresa suspendeu o fornecimento de alimentos, medicamentos e combustível que lhes fazia.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 26/10/1990

A terra dos yanomami

No dia 25 de maio de 1993, em uma solenidade realizada no Palácio do Planalto, em Brasília, na presença do presidente Fernando Collor de Mello, foi oficializada a demarcação da reserva dos índios yanomami.

O trabalho, iniciado em 27 de janeiro do mesmo ano, foi concluído oito dias antes do prazo estabelecido. Ele abrangeu uma área de 94 mil quilômetros quadrados, em Roraima e no Amazonas, que resultou na abertura de 691 quilômetros de picadas, com seis metros de largura.

Foram afixados 60 marcos geodésicos (usados para identificar os pontos determinados pelas coordenadas geográficas obtidas por rastreamento de satélite) e 632 marcos de monumentação (colocados no centro da linha de picadas, de dois em dois quilômetros, para fixar os limites da área).

Cem placas foram colocadas ao longo do perímetro da demarcação, onde é fácil o acesso de não índios. Com um metro de largura e 67 centímetros de altura, as placas continham a seguinte inscrição: “Área proibida. Terra indígena com acesso interditado a pessoas estranhas”.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 26/05/1993

Conflito com os assurini

Em 1976, o governo do Pará construiu a PA-156, que ficou conhecida como Transtucuruí, ligando Tucuruí a Cametá, no Baixo Tocantins. Numa extensão de nove quilômetros, por 60 metros de largura, essa estrada cortou a reserva Trocará, dos índios assurini, nessa época com uma população de 60 indivíduos.

Como não receberam qualquer indenização, os índios decidiram criar uma barreira na rodovia para a cobrança de pedágio. O governo do Estado decidiu então pagar uma indenização, no valor de 4 milhões de cruzeiros (moeda da época).

Em setembro de 1991, os índios voltaram a pressionar e o governo assinou um acordo com eles, referendado pela Funai, comprometendo-se a realizar várias benfeitorias na área, incluindo uma estrada vicinal, instalação de água potável, escola, farmácia, barco, pequena serraria, motor de luz.

A secretaria de Transporte ficaria encarregada de controlar as obras para evitar o uso de bebida alcoólica e invasão nas terras indígenas. O prazo para a execução dos serviços venceu e não foi cumprido.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 29/10/1992

Garimpo contamina índios

Uma pesquisa realizada por Antônio Carneiro Barbosa, professor do Departamento de Química da Universidade de Brasília, mostrou que a maioria dos índios kayapó, do sul do Pará, havia sido contaminada pelo mercúrio usado nos garimpos da região. O pesquisador apresentou os resultados da pesquisa durante o 32º Congresso Brasileiro de Química, realizado em Belém, em outubro de 1992.

Barbosa analisou 126 amostras de sangue, 178 de urina e 203 de cabelos dos índios, que habitavam principalmente as aldeias Gorotire e Kikretum, às margens do rio Freco. A contaminação era feita principalmente através dos peixes desse rio, base da alimentação das tribos, que absorviam o mercúrio nas águas, transformando-o em metilmercúrio.

O percentual de contaminação por mercúrio no sangue atingiu níveis acima do limite crítico estabelecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 50,5% dos índios da aldeia Gorotire e em 85.7% dos kayapó da aldeia Kikretum. Nos garimpeiros, esse percentual foi de 33,3%. Na urina, os percentuais foram de 35,7%, 9,3% e 37,6%, respectivamente.

A contaminação encontrada no cabelo foi de 30,5% na aldeia Gorotire, 51,1% na aldeia Kikretum e de 0,8% entre os garimpeiros. O pesquisador também constatou elevados índices de contaminação entre os moradores das margens do rio Madeira, onde fez outro levantamento sobre o uso do mercúrio por garimpos.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 29/10/1992

Conflito na reserva Mãe Maria

No início de 1986, era tensa a situação na área da reserva indígena Mãe Maria, dos índios gavião, a 30 quilômetros da cidade de Marabá, no Pará. A área estava ocupada por 39 posseiros assentados dentro da reserva pelo Mirad (Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário) e outros 139 invasores, que penetraram na terra indígena por conta própria. Os gavião pressionavam o governo para desocupar a área.

Fonte: Arquivo Pessoal, 17/03/1986

Primeiros contatos com os panará

Os irmãos Orlando e Cláudio Vilas Boas, sertanistas da Funai, fizeram os dois primeiros contatos com os índios conhecidos então como kreenakarore (na verdade, panará), que se mantinham em isolamento, num intervalo de dois dias. O mais consistente foi no início de fevereiro de 1973, às margens do rio Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso, onde haviam montado um acampamento para sua frente de atração.

Os Vilas Boas estavam casualmente no local, acompanhados de jornalistas e outros integrantes da expedição, quando, do outro lado do rio, apareceram dois índios jovens, aparentando 18 e 20 anos. A aproximação foi tensa da parte dos índios, que estavam dispostos ao contato, mas aparentavam medo e nervosismo.

Houve troca de presentes entre os sertanistas e os kreenakarore, na época mais conhecidos como “índios gigantes”, e uma tentativa de se fazer entender, dificultada porque nem mesmo os índios xinguanos que acompanhavam os Vilas Boas entendiam a língua dos dois guerreiros. Entoando um canto, eles desapareceram no meio da mata, enquanto os sertanistas voltavam ao acampamento.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 10/02/1973

Área dos panará interditada

Em março de 1973, o presidente Garrastazu Médici assinou decreto interditando a área habitada pelos índios kreenakarore, na divisa do Mato Grosso com o Pará. O ato teria o objetivo de criar condições para que a Funai, “a salvo de qualquer tipo de ingerência, promova a atração daquele povo indígena”.

Os efeitos da interdição permaneceriam até a Funai poder propor ao Ministério do Interior a criação da reserva indígena “destinada ao ‘habitat’ definitivo dos kreenakarore” (cujo nome correto é panará).

Durante esse período, a Fundação Nacional do Índio poderia requisitar o auxílio da Polícia Federal no sentido de que “sejam impedidos ou restringidos o ingresso, o trânsito e a permanência de pessoas ou grupos, cujas atividades sejam julgadas nocivas ou inconvenientes ao processo de atração daquele grupo indígena”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 10/03/1973