Conflito na reserva Mãe Maria

No início de 1986, era tensa a situação na área da reserva indígena Mãe Maria, dos índios gavião, a 30 quilômetros da cidade de Marabá, no Pará. A área estava ocupada por 39 posseiros assentados dentro da reserva pelo Mirad (Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário) e outros 139 invasores, que penetraram na terra indígena por conta própria. Os gavião pressionavam o governo para desocupar a área.

Fonte: Arquivo Pessoal, 17/03/1986

Primeiros contatos com os panará

Os irmãos Orlando e Cláudio Vilas Boas, sertanistas da Funai, fizeram os dois primeiros contatos com os índios conhecidos então como kreenakarore (na verdade, panará), que se mantinham em isolamento, num intervalo de dois dias. O mais consistente foi no início de fevereiro de 1973, às margens do rio Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso, onde haviam montado um acampamento para sua frente de atração.

Os Vilas Boas estavam casualmente no local, acompanhados de jornalistas e outros integrantes da expedição, quando, do outro lado do rio, apareceram dois índios jovens, aparentando 18 e 20 anos. A aproximação foi tensa da parte dos índios, que estavam dispostos ao contato, mas aparentavam medo e nervosismo.

Houve troca de presentes entre os sertanistas e os kreenakarore, na época mais conhecidos como “índios gigantes”, e uma tentativa de se fazer entender, dificultada porque nem mesmo os índios xinguanos que acompanhavam os Vilas Boas entendiam a língua dos dois guerreiros. Entoando um canto, eles desapareceram no meio da mata, enquanto os sertanistas voltavam ao acampamento.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 10/02/1973

Área dos panará interditada

Em março de 1973, o presidente Garrastazu Médici assinou decreto interditando a área habitada pelos índios kreenakarore, na divisa do Mato Grosso com o Pará. O ato teria o objetivo de criar condições para que a Funai, “a salvo de qualquer tipo de ingerência, promova a atração daquele povo indígena”.

Os efeitos da interdição permaneceriam até a Funai poder propor ao Ministério do Interior a criação da reserva indígena “destinada ao ‘habitat’ definitivo dos kreenakarore” (cujo nome correto é panará).

Durante esse período, a Fundação Nacional do Índio poderia requisitar o auxílio da Polícia Federal no sentido de que “sejam impedidos ou restringidos o ingresso, o trânsito e a permanência de pessoas ou grupos, cujas atividades sejam julgadas nocivas ou inconvenientes ao processo de atração daquele grupo indígena”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 10/03/1973

Waimiri atacam Funai

Em janeiro de 1973, os índios waimiri-atroari atacaram o posto de atração no rio Alalaú, no Estado do Amazonas, matando três dos quatro funcionários da Funai que se encontravam na base e tocando fogo nas casas. O único sobrevivente conseguiu escapar se escondendo, atirando foguetes para assustar os índios e nadando pelo rio.

O ataque, feito de surpresa, teria sido motivado por um atrito dos índios com um transportador de mercadorias contratado por um dos empreiteiros que trabalhava na construção da BR-174, a estrada ligando Manaus à Venezuela, através de Boa Vista, em Roraima.

Os waimiri-atroari mantiveram, ao longo de muitos anos, relações difíceis com as frentes de penetração em seu território, culminando com o massacre, em 1968, de uma expedição de pacificação comandada pelo missionário católico italiano Calleri. Todos os integrantes da expedição foram mortos.

A abertura da estrada pela área indígena fez a Funai intensificar a frente de atração dos índios, comandada pelo sertanista Gilberto Pinto Figueiredo Costa.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 01/02/1973

As missões religiosas

Depois de ter recebido denúncias sobre a atuação irregular de missões religiosas estrangeiras na Amazônia, o Ministério do Interior solicitou à Força Aérea Brasileira, em 1968, um levantamento da situação.

No relatório que apresentou, a FAB apontou 19 postos de missões, estabelecidas em vários pontos da região, sobretudo no Estado do Amazonas e Roraima. As principais eram as protestantes americanas, com 10 postos:

1) Posto Uaicá, no Território de Roraima, na margem direita do rio Uraricoera, na Serra do Marutani, da Missão da Cruzada de Evangelização Mundial, uma das representantes no Brasil da Univangelized Fields Missions.

2) Posto Xiriana, também em Roraima, na Serra dos Surucucus, região do Alto Parima, igualmente da Cruzada de Evangelização Mundial.

3) Posto Surucucu, em Roraima, na Serra dos Surucucus, no Alto Parima, da Cruzada Mundial de Evangelização.

4) Posto Anaris, Roraima, na margem do rio Anaris, afluente do Uraricoera, da Cruzada de Evangelização Mundial.

5) Posto Boas Novas, Roraima, na região do rio Ericó, afluente do rio Uraricaá, da mesma Cruzada.

6) Posto Contão, Roraima, na margem do rio Cotingo, da Sociedade Evangelizadora Baptist Mid-Missions.

7) Posto Marauacá, no Estado do Amazonas, na margem direita do rio Totobi, afluente do rio Demeni, a cargo da Missão Novas Tribos do Brasil, apoiada pela Missão Asas do Socorro, que atuava também no Maranhão e em Goiás.

8) Posto Ajuricaba, também no Amazonas, na margem do rio Demini, da Missão Novas Tribos do Brasil.

 9) Posto Uaiuai, no Pará, na margem do rio Cafuiene, um dos formadores do Trombetas, sob a responsabilidade da Cruzada de Evangelização Mundial.

10) Posto Alalaú, no limite entre Roraima e Amazonas, da Cruzada de Evangelização Mundial. Postos das missões franciscanas canadenses.

11) Posto Cururu, no Pará, na margem do rio Cururu, afluente do Tapajós.

12) Posto Tiriós, no Pará, na margem do rio Paru do Oeste. Missões salesianas italianas.

13) Posto Iauretê: no Amazonas, na margem esquerda do rio Uaupés, afluente do Negro, na foz do rio Papuri, na fronteira do Brasil com a Colômbia.

14) Posto Pari-Cachoeira, no Amazonas, na margem do rio Tiquié, afluente do rio Uaupés, próximo à fronteira com a Colômbia.

15) Posto Taraguá, no Amazonas, na margem direita do rio Uaupés, afluente do Negro.

16) Posto São Gabriel, no Amazonas, na margem esquerda do rio Negro, na região das maiores corredeiras.

17) Posto Içana, no Amazonas, à margem direita do rio Içana, afluente do Negro.

18) Posto Barcelos, no Amazonas, na margem direita do rio Negro.

19) Posto Marauiá, no Amazonas, nas margens do rio Maruiá, afluente do Negro.

 Segundo o relatório da FAB, as missões religiosas estrangeiras se estabeleciam sem autorização prévia do governo, alegando que iriam catequizar os índios, recebendo auxílio da própria Força Aérea.

A Missão Novas Tribos do Brasil estava envolvida, na ocasião, em compras irregulares de terras no Maranhão e em Goiás, ‘a frente das quais estava Henry Fuller, presidente da World Land Corporation.

A Missão mantinha um colégio em Puraquequara, ao sul do município de Manaus, no Amazonas, ocupando área de 133 hectares, com 65 alunos americanos, que estudavam línguas indígenas da Amazônia. Concluindo o curso, eram enviados para as missões protestantes.

As missões também contavam com geólogos, geofísicos, botânicos, médicos e dentistas. Dispunham de frotas de barcos e aviões.

Fonte: Correio da Manhã (Rio de Janeiro/RJ), 30/06/1968

Reserva em Balbina

Em junho de 1990, o presidente Fernando Collor de Mello criou a Reserva Biológica do Uatumã, no Estado do Amazonas, com área de 560 mil hectares, subordinada ao Ibama (Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A área abrangeria as ilhas formadas no reservatório da hidrelétrica de Balbina.

FONTE: Gazeta Mercantil (São Paulo/SP), 09/06/1990

Demitido presidente da Funai

Em junho de 1991, o ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, demitiu o presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), Cantídio Guerreiro Guimarães. Ele foi acusado pelo administrador do Parque do Xingu, o cacique Megaron Txukarramãe, de ter “abusado” de uma índia da tribo caiabí, tomar banho nu com os índios e fotografar índias nuas. Representantes de 70 nações indígenas confirmaram a denúncia, assinada por 58 chefes.

O motivo oficial apresentado para a demissão, entretanto, foi a “inoperância” do presidente da Funai, que não apresentou qualquer levantamento para a demarcação da reserva Yanomami, dois meses após a constituição de comissão com essa finalidade. Além disso, a Funai nada teria feito para impedir o retorno de garimpeiros à área dos índios, depois que de lá eles foram expulsos.

FONTE: O Globo (Rio de Janeiro/RJ), 24/06/1991