Denúncias de trabalho escravo

Em agosto de 1972, a Polícia Federal abriu inquérito, no Pará, com a finalidade de apurar denúncia de trabalho escravo em duas fazendas do Estado: a Fazenda Nova, no município de Ipixuna, e a Fazendas Reunidas, em São Domingos do Capim. A denúncia foi apresentada inicialmente à polícia civil estadual pelo lavrador Ailton Farias de Souza.

Outro lavrador, José de Souza Alves, acusou a firma Serviços Florestais Ltda. de também obrigar seus contratados a trabalhar em regime de semiescravidão, relatando seu próprio caso: foi contratado em Belém pela empresa, mas só teve acesso ao contrato durante a viagem para Monte Dourado, sede do Projeto Jari.

Ali, deveria trabalhar em plantio e conservação de floresta, mas foi obrigado a fazer parte das frentes de desmatamento. Mesmo com a perna ferida num acidente, continuou a trabalhar, até que suas condições físicas o inabilitaram. Foi dispensado sem receber o que tinha direito.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 03/08/1972

Estrada interditada

Em janeiro de 1990, o Ibama interditou a construção de um prolongamento da BR-156, ligando os municípios de Macapá e Laranjal do Jari, no Amapá. A medida foi adotada porque a empresa responsável, a C. R. Almeida, não havia apresentado o Relatório de Impacto Ambiental (Rima).

A obra começou no primeiro governo Aníbal Barcelos, permanecendo paralisada até 1990, quando, já na administração Gilton Garcia, foi retomada.  A Procuradoria Geral da República, em Brasília, determinou ao Ibama o embargo da obra.

O Rima foi discutido em audiência pública no dia 24 de julho de 1991. Por apresentar falhas, recebeu muitas críticas. Os responsáveis se comprometeram então a supri-las e o Ibama suspendeu em setembro o embargo, pelo prazo de 90 dias.

(O Liberal, Belém/PA, 07/09/1991)

Caulim do Jari

 

A Caulim da Amazônia S/A (Cadam), a maior produtora de caulim da América Latina, comercializou, em 1990, 340 mil toneladas de caulim “amazon 99”, faturando 53,2 milhões de dólares. Para o mercado externo foram 301 mil toneladas e internamente (com demanda estimada em 500 mil toneladas) foram vendidas 39 mil toneladas.

Em 1991, a Cadam iria produzir 385 mil toneladas. A empresa, subsidiária da Companhia do Jari, era então controlada pelo empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes. A reserva que explora, no Morro do Felipe, no Amapá, era de 500 milhões de toneladas.

No Brasil todo, quarto maior produtor mundial, as reservas somavam 2,5 bilhões de toneladas. A oferta mundial de caulim era de pouco mais de 22 milhões de toneladas. Com um total de 14 milhões de toneladas, Estados Unidos, Inglaterra e a ex-União Soviética controlavam mais de 60% da oferta mundial.

(Gazeta Mercantil, São Paulo/SP, 16/02/1991)

Orsa assume Jari

Em 2000, o grupo Orsa, do empresário Sérgio Amoroso, assumiu o controle da Jari Celulose pelo valor simbólico de um real. Para isso, incorporou uma dívida equivalente a 415 milhões de dólares junto a 17 bancos credores. Pelo esquema acertado, o novo controlador deveria amortizar US$ 112 milhões até 2010.

Em 2000 ele pagou US$ 12 milhões. Em 2001, foram apenas US$ 6 milhões. O valor das parcelas ficaria vinculado ao faturamento, que em 2001 foi de US$ 155 milhões.

A Orsa investiu US$ 54 milhões para permitir a continuidade da produção, de 300 mil toneladas anuais de celulose, representando 5% da produção nacional. O Projeto Jari surgiu em 1967, criado pelo milionário americano Daniel Ludwig.

(O Liberal, Belém/PA, 30/01/2002)

O começo da Jari de Ludwig

Em outubro de 1967 o deputado federal Haroldo Veloso, da Arena do Pará, relator da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre terras de estrangeiros na Amazônia, comunicou ter recebido informações sobre a aquisição de dois milhões de hectares no vale do rio Jari, entre o Pará e o Amapá, pela empresa americana Bolt Carriers Co.

Embora não constasse nos arquivos do Ibra (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, antecessor do Incra) nenhum registro sobre a transferência de uma propriedade desse tamanho, moradores da região comunicaram ao parlamentar que a empresa realmente tinha se tornado dona dessas terras.

Ela as teria comprado a área em lotes menores ao longo de mais de um ano, até totalizar os dois milhões de hectares. A área era quatro vezes maior do que o então Estado da Guanabara. O DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral) considerava essa região promissora para diamante, ouro e cassiterita.

(Folha do Norte (Belém/PA), 31/10/67)

Greve na Jari

A Associação Profissional dos Trabalhadores da Indústria de Celulose de Almeirim (depois transformada em sindicato) comandou, no dia 20 de maio de 1987, a primeira greve de trabalhadores realizada no projeto Jarí, que começou a ser implantado no final da década de 60 pelo milionário Daniel Ludwig.

A paralisação, com previsão de durar quatro dias, foi suspensa na madrugada do segundo dia porque os trabalhadores “foram coagidos pelos chefes de setores”, segundo o presidente da associação, José Raudamedes. Mas ele garantiu que o movimento contou com a adesão de 25% dos 4.500 empregados da fábrica de celulose da Companhia Florestal Monte Dourado, sucessora de Ludwig.

Os trabalhadores reivindicavam 25% de aumento salarial, já com o desconto do dissídio de maio, e a venda, a preço de custo, dos produtos de primeira necessidade no supermercado da empresa, o único existente em Monte Dourado. Como a Jari se recusou a negociar, a associação desencadeou o movimento grevista.

(O Liberal (Belém/PA), 22/08/87)