O começo da Jari de Ludwig

Em outubro de 1967 o deputado federal Haroldo Veloso, da Arena do Pará, relator da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre terras de estrangeiros na Amazônia, comunicou ter recebido informações sobre a aquisição de dois milhões de hectares no vale do rio Jari, entre o Pará e o Amapá, pela empresa americana Bolt Carriers Co.

Embora não constasse nos arquivos do Ibra (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, antecessor do Incra) nenhum registro sobre a transferência de uma propriedade desse tamanho, moradores da região comunicaram ao parlamentar que a empresa realmente tinha se tornado dona dessas terras.

Ela as teria comprado a área em lotes menores ao longo de mais de um ano, até totalizar os dois milhões de hectares. A área era quatro vezes maior do que o então Estado da Guanabara. O DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral) considerava essa região promissora para diamante, ouro e cassiterita.

(Folha do Norte (Belém/PA), 31/10/67)

Greve na Jari

A Associação Profissional dos Trabalhadores da Indústria de Celulose de Almeirim (depois transformada em sindicato) comandou, no dia 20 de maio de 1987, a primeira greve de trabalhadores realizada no projeto Jarí, que começou a ser implantado no final da década de 60 pelo milionário Daniel Ludwig.

A paralisação, com previsão de durar quatro dias, foi suspensa na madrugada do segundo dia porque os trabalhadores “foram coagidos pelos chefes de setores”, segundo o presidente da associação, José Raudamedes. Mas ele garantiu que o movimento contou com a adesão de 25% dos 4.500 empregados da fábrica de celulose da Companhia Florestal Monte Dourado, sucessora de Ludwig.

Os trabalhadores reivindicavam 25% de aumento salarial, já com o desconto do dissídio de maio, e a venda, a preço de custo, dos produtos de primeira necessidade no supermercado da empresa, o único existente em Monte Dourado. Como a Jari se recusou a negociar, a associação desencadeou o movimento grevista.

(O Liberal (Belém/PA), 22/08/87)

O almirante do Gebam

Em março de 1987 o contra-almirante Roberto da Gama e Silva pediu para sair e foi dispensado da presidência do Grupo Executivo para o Baixo-Amazonas (Gebam), subordinado à Secretaria-Geral do Conselho de Segurança Nacional.

Para o lugar dele foi nomeado o contra-almirante Ivan Simas de Oliveira. Voltando ao serviço ativo da Marinha, Gama e Silva foi nomeado para o Comando do Controle Naval do Tráfego Marítimo, com sede no Rio de Janeiro.

O almirante foi acusado, em 1986, pelo senador amazonense Fábio Lucena, de ter contrabandeado um carro e aliciado votos no Amazonas contra o candidato do PMDB ao governo, Gilberto Mestrinho. Gama e Silva propôs uma ação por calúnia e difamação contra Lucena perante o Supremo Tribunal Federal.

(Folha de S. Paulo, São Paulo/SP, 14/03/1987)

Fábrica da Jari explode

O pior acidente da história do Projeto Jari ocorreu em 27 de julho de 1988, quando uma violenta explosão destruiu a caldeira principal da fábrica de celulose da Companhia Florestal Monte Dourado, a sucessora do milionário americano Daniel Ludwig.

De imediato, o acidente causou um prejuízo de 18,5 milhões de dólares, que subiria  para US$ 74 milhões – equivalente a metade dos recursos necessários para a construção de uma hidrelétrica no rio Jari, que a empresa vinha tentando executar – até a fábrica retornar às atividades normais, em maio do ano seguinte.

A explosão abriu uma fenda de meio metro de altura do terceiro ao sétimo piso da caldeira, equivalente a um edifício de 12 andares. Também  retorceu as grossas vigas de sustentação do equipamento e destruiu totalmente a fornalha. Mas não houve vítimas humanas.

Antes do parecer dos técnicos contratados para apurar as causas do acidente, cujos prejuízos materiais foram cobertos pelo seguro, o presidente do sindicato dos trabalhadores, José Moreira Silva, atribuiu o acidente à sobrecarga dos equipamentos, já em fase de exaustão depois de nove anos de uso sem substituição.

Com capacidade nominal para 750 toneladas/dia, a fábrica chegou a produzir 1.056 toneladas. Chegou a bater o recorde de produção em abril de 1988, com 25.077 toneladas, façanha que chegou a ser comemorada pelos dirigentes da empresa.

A fábrica foi paralisada totalmente 30 dias antes do acidente para manutenção. Na ocasião, foram trocados diversos condutores de vapor da caldeira, que apresentavam problemas. “A explosão ocorreu nos segmentos não substituídos”, admitiu na época o chefe de manutenção, Raimundo Nonato Souza de Araújo.

A fábrica consumia então, a cada ano, 9 mil hectares de florestas cultivadas de gmelina, pinho e eucalipto, mais mil hectares de floresta nativa. Mas os plantios próprios não eram suficientes para atender a demanda e a Jari comprava madeira da Amapá Florestal e Celulose, do grupo, também o maior acionista da Jari na época.

(Jornal do Brasil, Rio de Janeiro/RJ, 28/08/1989)

Para salvar o arroz da Jari

Políticos do Pará tentaram, no início de 1988, evitar a completa desativação da plantação de arroz da São Raimundo Agroindustrial, um dos projetos criados pelo milionário americano Daniel Ludwig no vale do rio Jarí.

Os políticos queriam que o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário comprasse a área para nela assentar 400 agricultores. Argumentavam que a empresa fracassara porque sua operação representava um alto consumo de energia, mas os lavradores poderiam manter o arrozal manualmente.

Eles temiam que o fechamento da São Raimundo criasse um problema de abastecimento para o Estado: a empresa era responsável por 20% da produção de arroz consumido no Pará, além de empregar 450 pessoas.

(A Província do Pará, Belém/PA, 07/04/1988)

Caducidade da jazida de bauxita

Em março de 1981 José Meinssen de Moraes apresentou uma ação popular na justiça federal do Rio de Janeiro para anular a venda de 11 jazidas de bauxita localizadas no município de Oriximiná, no Pará. Requereu ainda a declaração de caducidade dos decretos de lavra das jazidas e a reposição dos prejuízos por parte dos responsáveis pela transação – o ministro de minas e energia, César Cals, o grupo Ludwig e o consórcio Alcoa/Shell.

Segundo o autor da ação, as jazidas tinham sido avaliadas em 2,5 bilhões de dólares, mas foram transferidas por apenas US$ 50 milhões, “decorrendo daí uma grave lesão à economia e ao fisco”.

A ação também se fundamentava no fato de os decretos de lavra concedidos a empresas do grupo Ludwig, entre 1969 e 1971, terem caducado em função da total inexploração em 12 anos. A caducidade era prevista no Código de Mineração.

(Folha de S. Paulo, São Paulo/SP, 24/03/1981)