Bispo nu?

Durante todo o tempo em que responderam a processo perante a justiça militar do Pará, os padres franceses Aristide Camio e François Gouriou permaneceram presos no quartel do 2º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército, em Belém. Antes da condenação dos dois, as visitas podiam ser feitas duas vezes por semana, duas horas de cada vez, e o arcebispo coadjutor de Belém, d. Vicente Zico, podia visitar a ambos em qualquer dia.

Após a condenação, as visitas passaram a ser feitas apenas uma vez por semana, durante uma hora. D. Zico perdeu o privilégio e, em agosto de 1986, viu-se envolvido em um incidente. O soldado responsável pela revista dos visitantes exigiu que o arcebispo se despisse, como os demais, obrigados a tirar até as cuecas. Indignado, d. Zico se recusou a submeter-se à exigência e retirou-se.

O arcebispo de Belém, d. Alberto Ramos, emitiu uma nota oficial condenando a atitude. Mas o comandante da 8ª Região Militar, general Waltencir Costa, negou que a exigência tivesse sido feita ao religioso.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 07-08-1986

Padre expulso do Brasil

Em dezembro de 1976, o vigário de Vila Rondon, no Pará, padre Giuseppe Fontanella, foi expulso do Brasil. A acusação oficial apresentada era a de que se encontrava em situação irregular no país, mas o objetivo seria político: intimidar a ala da Igreja que se chocava com o governo.

Durante os oito anos em que esteve no Brasil, o padre tentou sem sucesso transformar seu visto de turista em autorização para morar no país. Depois de ser interrogado durante dois dias, por mais de 11 horas, no quartel da 8ª Região Militar do Exército, em Belém, por dois coronéis e um major, o padre recebeu prazo de três dias, posteriormente prorrogado para oito, para deixar o Brasil. Um agente da Polícia Federal o acompanhou de Belém ao Rio de Janeiro, de onde seguiu para a Europa.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 01-01-1980.

Padre demente acusação à Igreja

Em novembro de 1976, o jornal Correio Braziliense publicou uma entrevista com o padre Florentino Maboni, na qual ele dizia que a Igreja da Amazônia estava infiltrada por esquerdistas e que sua pastoral era subversiva. Um mês depois, em carta enviada à Regional Norte II da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o padre, que já se encontrava na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, depois de permanecer um mês preso no Pará, esclareceu que as declarações publicadas na entrevista eram “um punhado de coisas truncadas e distorcidas que não refletem o que eu respondia nos vários interrogatórios e menos ainda o que penso”.

Informava ainda que haviam sido feitos “acréscimos de termos importantes e comprometedores, que eu não usei e jamais pensaria em acusar a Igreja como tal”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 01-01-1980.

 A subversão do capelão militar

O padre Florentino Maboni, enquadrado na Lei de Segurança Nacional sob a acusação de incitar posseiros a atacar tropa da Polícia Militar, havia sido distinguido na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, com a medalha do Pacificador pelos relevantes serviços prestados à guarnição militar ali sediada como radioamador.

De 1960, quando se ordenou sacerdote, até julho de 1976, quando foi transferido para Marabá, ele atuou em Santo Ângelo e Uruguaiana, na fronteira gaúcha, com “conduta irrepreensível”, conforme atestou o arcebispo de Porto Alegre, d. Vicente Scherer, de posição conservadora.

Sua transferência para Marabá tinha sido temporária, dentro do programa igrejas-irmãs. Em setembro, um mês antes de ser preso, ele foi para Conceição do Araguaia. ”

Fonte: O Liberal (Belém), 01-01-1980.

O escândalo da Capemi

O juiz da 13ª vara de falências e concordatas do Rio de Janeiro, Luís de Sousa Gouvêa, excluiu de sua sentença, dada em fevereiro de 1986, 13 das 16 pessoas denunciadas pelo curador Hélio Gama como envolvidas em irregularidades no projeto para a extração de madeira da área do reservatório da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. O empreendimento foi entregue pelo governo à Agropecuária Capemi.

Dentre os excluídos pelo juiz estavam dois generais, um coronel, um irmão e um primo-irmão do chefe da agência central do SNI (Serviço Nacional de Informações), Newton Cruz; dois genros de um deles, o irmão do então prefeito do Rio de Janeiro, o filho caçula do presidente João Figueiredo, Paulo Figueiredo, e um sócio dele.

Foram denunciados apenas o ex-superintendente da Agropecuária Capemi, Fernando José Pessoa dos Santos; o diretor da Capemi Distribuidora de Valores, Luiz Cacciatore Arroba Martins; e o ex-coordenador geral do projeto de Tucuruí pelo Ministério da Agricultura, Roberto Amaral.

Fonte : O Estado de S. Paulo (SP), 13 de março de 1984

Os generais e a Amazônia

O jornal New York Times defendeu, em editorial publicado em fevereiro de 1989, a utilização de parte da dívida externa brasileira, calculada então em 115 bilhões de dólares, para impedir a continuação da destruição da floresta amazônica. Observou o periódico novaiorquino que o ministro do exterior, o ex-governador de São Paulo Abreu Sodré, aprovou a iniciativa, mas ela foi vetada pelo presidente José Sarney. O presidente estava empenhado em não permitir que a Amazônia se transformasse num “Golfo Pérsico verde”. Esses temores, segundo o jornal, “carecem de fundamento e foram elaborados pelos generais”.

Fonte : O Liberal (Belém), 4 de fevereiro de 1989

Militares na fronteira

As forças armadas brasileiras realizaram, em outubro de 1993, a “Operação Surumu”, um treinamento nas selvas dos Estados do Amazonas e Roraima, que mobilizou mais de cinco mil homens, simulando um ataque ao país através das fronteiras amazônicas e a expulsão dos invasores. O treinamento foi acompanhado por adidos militares de países sul-americanos e pelo brigadeiro Joseph Singh, chefe do Estado Maior das Forças Armadas da Guiana. Seis meses antes os Estados Unidos haviam realizado exercício semelhante na Guiana, antiga colônia inglesa.

Fonte: O Globo (Rio de Janeiro/RJ), 07/10/1993