O garimpo como reduto eleitoral

Entre maio de 1980 e 12 de dezembro de 1982, o garimpo de Serra Pelada, em Marabá, no Pará, produziu 15.848 quilos de ouro, no valor de 230 milhões de dólares, segundo dados citados pelo tenente-coronel (da reserva) Sebastião Rodrigues de Moura, num manifesto divulgado em dezembro de 1982.

Como candidato eleito a deputado federal pelo PDS paraense, o militar, mais conhecido como Curió, protestou contra a impugnação das eleições em Serra Pelada pelo TRE, sob o argumento de que houvera irregularidades na votação e que o garimpo se localizava em propriedade particular. Em Serra Pelada residiam, na época, 35 mil pessoas.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 31-07-1985

PM mata garimpeiros na ponte

Como numa operação de guerra, 340 homens da Polícia Militar do Pará desobstruíram, no dia 29 de dezembro de 1987, a ponte rodoferroviária sobre o rio Tocantins, em Marabá. Na véspera, a ponte foi ocupada por aproximadamente 2.500 garimpeiros, numa manifestação em favor da reabertura do garimpo de Serra Pelada.

O comandante da tropa pediu que os garimpeiros abandonassem a ponte, mas eles decidiram permanecer no local, cantando o hino nacional. Um garimpeiro teria atirado uma pedra e ferido um soldado. Os militares reagiram, a princípio atirando para o ar, mas depois investindo contra a massa.

Oficialmente, foram admitidas apenas duas mortes, embora os manifestantes falassem em dezenas de mortos ou desaparecidos: José dos Santos, de 33 anos, piauiense de Teresina, recebeu um tiro de fuzil nos rins; e um garimpeiro de identidade desconhecida, de cor branca, louro, forte, levou um tiro no pulmão.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 31-07-1985

Vigilância da Amazônia

Em junho de 1993, o almirante Mário Cesar Flores, ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, fez uma exposição para o presidente Itamar Franco e mais 14 ministros, mostrando a conveniência da adoção de um sistema de vigilância para a Amazônia. O encontro foi realizado no auditório do subsolo do Palácio do Planalto, em Brasília, para permitir a exibição de slides em um telão mostrando a situação da Amazônia.

Segundo nota oficial divulgada pela Presidência da República, o encontro teve o propósito de “apresentar a concepção técnica de um sistema de vigilância para a Amazônia”, composto por sensores (radares, monitoramento por satélite), comunicações e processamento de dados. O novo sistema teria a finalidade de inibir a prática de ilícitos, aumentar o controle das fronteiras e a segurança do tráfego aéreo e fluvial.

Fonte: Diário do Pará (Belém/PA), 13-06-1993

Projeto Calha Norte

O Projeto Calha Norte foi criado pelo governo federal em 1985, mas só ficou conhecido pela opinião pública no ano seguinte, quando foi liberada a primeira verba, para a compra de lanchas, construção de pelotões de fronteira e aeroportos.

A justificativa para o projeto foi a defesa de 6,5 mil quilômetros de fronteira brasileira no Norte do país, desde o Oiapoque, no Amapá, a Tabatinga, no Amazonas, acompanhando os limites com as Guianas, Suriname, Venezuela e Colômbia. Ela se estende por uma faixa de 160 quilômetros ao longo dessas fronteiras, alcançando 1,2 milhão de quilômetros quadrados, um quarto da Amazônia Legal e quase 15% de todo o Brasil.

Na área viviam, à época, 1,6 milhão de pessoas, grande parte índios (representando 22% da população indígena do país) e as últimas reservas minerais ainda desconhecidas. Exército e Aeronáutica planejaram a instalação de oito pelotões de fronteira e o deslocamento para a área de 6.500 soldados.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 01-02-1988

Barco pesqueiro apresado

Em agosto de 1983, o navio-patrulha Pampeiro, do IV Distrito Naval, baseado em Belém, no Pará, fez disparos de metralhadora contra o barco pesqueiro Night Hawk, de bandeira americana, que pescava ilegalmente na costa do Amapá.

Flagrado, o barco tentou fugir, foi perseguido e recebeu os disparos de advertência, que o obrigaram a parar. Os três tripulantes, todos de Georgetown, na Guiana, foram presos. Também foi apresada a carga, de 962 quilos de camarão, vendida depois em leilão. Foi o terceiro apresamento em condições semelhantes no mar territorial brasileiro em 1983.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 16-08-1983

Contra a pesca ilegal

Em julho de 1983, o então ministro da Marinha, almirante Maximiano Fonseca, autorizou as patrulhas navais a atirar contra barcos pesqueiros que resistissem a uma ordem de captura quando flagrados atuando ilegalmente no mar territorial brasileiro, como faziam constantemente para a pesca de camarão.

O primeiro barco metralhado foi o Night Hawk, que foi devolvido aos Estados Unidos sem os petrechos de pesca, leiloados no Brasil. Como as invasões continuassem, o barco seguinte, o Cape Orange, não mais foi devolvido: o governo aplicou à empresa proprietária a pena do perdimento, incorporando-o à frota nacional.

O segundo caso de metralhamento foi contra o Sea Horse, também americano, mas com tripulação brasileira. A corveta Angostura o atingiu com disparos em maio de 1984.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 03-05-1984

Posseiro escreve ao presidente

Em julho de 1982, o posseiro Antônio Resplandes Coelho, que estava preso em Belém com outros 12 lavradores, acusados de crimes contra a segurança nacional, por terem atacado funcionários do Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins), escreveu uma carta ao presidente da república, general João Figueiredo.

O portador da carta foi o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Curió. Pelo mesmo intermediário, o presidente respondeu à carta, pedindo aos lavradores que não se deixassem dominar “pelo desespero desse período de suas vidas”.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 31-07-1982

Religiosos na Lei de Segurança Nacional

Em 1978, o juiz da comarca de Conceição do Araguaia, no Pará, Juracy Marques Tavares, decidiu excluir o bispo de Uberlândia, dom Estevão Cardoso Avelar, do processo no qual ele havia sido acusado de insuflar posseiros a atacar uma tropa da Polícia Militar, matando dois soldados e ferindo outros dois.

O bispo foi enquadrado em crime contra a segurança nacional, juntamente com padre Florentino Maboni e frei Henrique Marques da Silva, também excluídos da denúncia. D. Estevão era bispo de Conceição quando ocorreu o conflito, em 1976, resultante de um litígio nas terras doadas à Fundação Brasil Central.

A exclusão beneficiou também três agentes pastorais e três lavradores menores de idade, denunciados pelo mesmo crime perante a justiça militar, por onde o processo tramitou até ser deslocado para a justiça comum.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 17-08-1978

O major Curió

Sebastião Rodrigues de Moura, que ficou conhecido como Curió ao participar da repressão à guerrilha do Araguaia e da coordenação do garimpo de Serra Pelada, nasceu em São Sebastião do Paraíso, sul de Minas Gerais, a 15/12/1934, filho de um barbeiro.

Começou a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família, como engraxate. Entrou para o Exército, frequentando a Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Para aumentar sua renda, participava de lutas de boxe. Por causa dos ataques rápidos e do jogo de corpo, ganhou então o apelido de Curió. Em 1968, fez o curso de guerra na selva. Em agosto de 1980, tornou-se tenente coronel por merecimento.

Sua primeira missão foi num conflito armado pela posse de terras no interior do Paraná. Para obter informações, se apresentou como vendedor de quadros de santos. O Exército h avia deslocado 250 homens fortemente armados para enfrentar o problema, mas Curió diz que o resolveu pacificamente.

Fonte: O Liberal (Belém), 19-07-1981

Capemi em Tucuruí

Em julho de 1980, o presidente do IBDF, Mauro Reis, assinou portaria autorizando a Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares) a derrubar e extrair árvores numa área de 200 mil hectares, que seria inundada com o represamento do rio Tocantins pela barragem da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará.

A exploração do potencial madeireiro dessa área seria feita pela Agropecuária Capemi Indústria e Comércio, subsidiária da Capemi. O Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal já promovera duas concorrências anteriores, mas nenhuma empresa apresentara proposta, atrasando em quase um ano a exploração da madeira do reservatório.

Fonte: O Estado do Pará (Belém), 24-07-1980