Religiosos na Lei de Segurança Nacional

Em 1978, o juiz da comarca de Conceição do Araguaia, no Pará, Juracy Marques Tavares, decidiu excluir o bispo de Uberlândia, dom Estevão Cardoso Avelar, do processo no qual ele havia sido acusado de insuflar posseiros a atacar uma tropa da Polícia Militar, matando dois soldados e ferindo outros dois.

O bispo foi enquadrado em crime contra a segurança nacional, juntamente com padre Florentino Maboni e frei Henrique Marques da Silva, também excluídos da denúncia. D. Estevão era bispo de Conceição quando ocorreu o conflito, em 1976, resultante de um litígio nas terras doadas à Fundação Brasil Central.

A exclusão beneficiou também três agentes pastorais e três lavradores menores de idade, denunciados pelo mesmo crime perante a justiça militar, por onde o processo tramitou até ser deslocado para a justiça comum.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 17-08-1978

O major Curió

Sebastião Rodrigues de Moura, que ficou conhecido como Curió ao participar da repressão à guerrilha do Araguaia e da coordenação do garimpo de Serra Pelada, nasceu em São Sebastião do Paraíso, sul de Minas Gerais, a 15/12/1934, filho de um barbeiro.

Começou a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família, como engraxate. Entrou para o Exército, frequentando a Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Para aumentar sua renda, participava de lutas de boxe. Por causa dos ataques rápidos e do jogo de corpo, ganhou então o apelido de Curió. Em 1968, fez o curso de guerra na selva. Em agosto de 1980, tornou-se tenente coronel por merecimento.

Sua primeira missão foi num conflito armado pela posse de terras no interior do Paraná. Para obter informações, se apresentou como vendedor de quadros de santos. O Exército h avia deslocado 250 homens fortemente armados para enfrentar o problema, mas Curió diz que o resolveu pacificamente.

Fonte: O Liberal (Belém), 19-07-1981

Capemi em Tucuruí

Em julho de 1980, o presidente do IBDF, Mauro Reis, assinou portaria autorizando a Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares) a derrubar e extrair árvores numa área de 200 mil hectares, que seria inundada com o represamento do rio Tocantins pela barragem da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará.

A exploração do potencial madeireiro dessa área seria feita pela Agropecuária Capemi Indústria e Comércio, subsidiária da Capemi. O Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal já promovera duas concorrências anteriores, mas nenhuma empresa apresentara proposta, atrasando em quase um ano a exploração da madeira do reservatório.

Fonte: O Estado do Pará (Belém), 24-07-1980

Militar denuncia Igreja

Em abril de 1979, o comandante do 8º BEC (Batalhão de Engenharia de Construção) do Exército de Santarém, no Pará, denunciou a existência de “infiltração estrangeira” na região do Tapajós, apontando como responsável o bispo local, d. Tiago Ryan, americano, e os sacerdotes da diocese. Segundo o militar, os religiosos “desenvolvem princípios negativos na mente da população”.

Imediatamente a Regional Norte II da CNBB divulgou uma nota oficial em apoio ao bispo e aos padres, dizendo que o militar deveria denunciar empresas estrangeiras que “devastam a região e a ocupam em função de seus próprios interesses econômicos e aumento de seus lucros”. Defendeu também a “missão da Igreja”.

Fonte: O Liberal (Belém), 08-04-1979

Bispo nu?

Durante todo o tempo em que responderam a processo perante a justiça militar do Pará, os padres franceses Aristide Camio e François Gouriou permaneceram presos no quartel do 2º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército, em Belém. Antes da condenação dos dois, as visitas podiam ser feitas duas vezes por semana, duas horas de cada vez, e o arcebispo coadjutor de Belém, d. Vicente Zico, podia visitar a ambos em qualquer dia.

Após a condenação, as visitas passaram a ser feitas apenas uma vez por semana, durante uma hora. D. Zico perdeu o privilégio e, em agosto de 1986, viu-se envolvido em um incidente. O soldado responsável pela revista dos visitantes exigiu que o arcebispo se despisse, como os demais, obrigados a tirar até as cuecas. Indignado, d. Zico se recusou a submeter-se à exigência e retirou-se.

O arcebispo de Belém, d. Alberto Ramos, emitiu uma nota oficial condenando a atitude. Mas o comandante da 8ª Região Militar, general Waltencir Costa, negou que a exigência tivesse sido feita ao religioso.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 07-08-1986

Padre expulso do Brasil

Em dezembro de 1976, o vigário de Vila Rondon, no Pará, padre Giuseppe Fontanella, foi expulso do Brasil. A acusação oficial apresentada era a de que se encontrava em situação irregular no país, mas o objetivo seria político: intimidar a ala da Igreja que se chocava com o governo.

Durante os oito anos em que esteve no Brasil, o padre tentou sem sucesso transformar seu visto de turista em autorização para morar no país. Depois de ser interrogado durante dois dias, por mais de 11 horas, no quartel da 8ª Região Militar do Exército, em Belém, por dois coronéis e um major, o padre recebeu prazo de três dias, posteriormente prorrogado para oito, para deixar o Brasil. Um agente da Polícia Federal o acompanhou de Belém ao Rio de Janeiro, de onde seguiu para a Europa.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 01-01-1980.

Padre demente acusação à Igreja

Em novembro de 1976, o jornal Correio Braziliense publicou uma entrevista com o padre Florentino Maboni, na qual ele dizia que a Igreja da Amazônia estava infiltrada por esquerdistas e que sua pastoral era subversiva. Um mês depois, em carta enviada à Regional Norte II da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o padre, que já se encontrava na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, depois de permanecer um mês preso no Pará, esclareceu que as declarações publicadas na entrevista eram “um punhado de coisas truncadas e distorcidas que não refletem o que eu respondia nos vários interrogatórios e menos ainda o que penso”.

Informava ainda que haviam sido feitos “acréscimos de termos importantes e comprometedores, que eu não usei e jamais pensaria em acusar a Igreja como tal”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 01-01-1980.