Em 1980, quando o SNI estabeleceu o monopólio estatal da compra de ouro em Serra Pelada, o governo passou a pagar 65% do valor da cotação do metal na bolsa de Londres. O comprador direto era a Docegeo, subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce para pesquisa mineral, que era reembolsada pela Caixa Econômica Federal pelo valor pago ao garimpeiro, mais 15% a título de despesas e lucro.

Desses 15%, a Docegeo descontava 1% de IUM (Imposto Único sobre Minerais) e 0,04% para a CEF, também para despesas administrativas. A Caixa, por sua vez, era ressarcida pelo Banco Central.

(Arquivo pessoal, 1980)

A rodovia Transfronteira

Em 1989, a deputada federal Raquel Cândido, de Rondônia, apresentou na Câmara Federal projeto para a construção da rodovia Transfronteira. O objetivo era “eliminar e coibir o tráfico de drogas, as queimadas, o contrabando, a exploração mineral e vegetal ilegal, a ingerência nas tribos indígenas e possíveis movimentos guerrilheiros”.

A estrada teria 6.929 quilômetros de extensão ao longo da fronteira com a Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia, com 1.730 quilômetros atravessando áreas indígenas, 587 quilômetros em parques de conservação, cortando 284 rios e seis serras nos Estados do Pará, Amapá, Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre e Mato Grosso.

O projeto da parlamentar foi apresentado quatro anos depois que as forças armadas iniciaram outro empreendimento semelhante, o projeto Calha Norte, de natureza geopolítica. A Transfronteira também se confundia com a Perimetral Norte, rodovia projetada para ter 2.586 quilômetros, do Amapá ao Amazonas, que teve suas obras iniciadas em 1973, mais foi suspensa.

A Transfronteira também previa a instalação de agrovilas no seu traçado para servir de “apoio logístico permanente” às forças armadas brasileiras e dos países fronteiriços, que seriam previamente consultados.

FONTE: O Liberal (Belém/Pará), 10/11/1991

Curió e os padres

Quando estava em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde passava as férias com a família, em outubro de 1981, o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como major Curió, admitiu que conhecia havia mais de 12 anos cinco dos 13 posseiros que participaram de uma emboscada contra funcionários do Getat (Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins), em São Geraldo do Araguaia, no sul do Pará.

Do ataque resultou um morto e ferimentos em funcionários do Getat e agentes da Polícia Federal, que davam cobertura a uma missão de demarcação de terras, contestada pelos lavradores. Segundo Curió, os cinco posseiros seus conhecidos já estavam na região há mais de 14 anos, “enquanto os demais são invasores”.

O militar repetiu a acusação de que os posseiros foram incitados a armar a emboscada pelos padres franceses Aristides Camio e François Gouriou, presos com os 13 lavradores e enquadrados por subversão na Lei de Segurança Nacional.

FONTE: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 29/12/1981

Contrabando de peles

Em setembro de 1971, a 7ª Companhia de Fronteira do Exército apreendeu 50 mil peles de animais, incluindo onças e macacos, na cidade de Benjamin Constant, no Estado do Amazonas. A carga estava em nome de empresas de Manaus e se destinavam a Letícia, na Colômbia. A operação foi realizada em sigilo porque as autoridades acreditavam estar na pista dos “reis” do contrabando de peles.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 11/11/1971

A federalização de Carajás

No final de agosto de 1980. o governo federal encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei complementar que teve grande repercussão no Pará. A proposta visava criar duas categorias de territórios federais, “pelo desmembramento do Estado já existente, no interesse da Segurança Nacional, ou quando a União tenha que executar, na parte desmembrada, plano de desenvolvimento econômico ou social, com recursos superiores pelo menos a um terço do orçamento de capital do Estado atingido pela medida”.

Esse novo dispositivo foi interpretado como a maneira adotada pelo governo para desmembrar a área da Província Mineral de Carajás e transformá-la em território federal. . O projeto criou uma nova categoria de unidade, o Território Administrativo, com competência menos abrangente do que a do Território Autônomo, que precisava ter pelo menos 0,1% da população do país. Os paraenses temiam a perda de uma das partes mais ricas do seu território com a federalização de Carajás.

Fonte: O Estado do Pará (Belém/PA), 09/09/1980

O SNI em Serra Pelada

Em maio de 1980, o Serviço Nacional de Informações implantou um sistema para controle e coordenação do garimpo de Serra Pelada, no Pará, que se manteve até outubro de 1983, “quando o serviço se retirou porque esse modelo estava desmoronando”, segundo a avaliação feita pelo geólogo João Bosco Pereira Braga, durante a 42ª Semana de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, realizada em Belém, em outubro de 1985.

Braga disse que o sistema do SNI “facilitou os desmandos, a corrupção e as arbitrariedades contra a população local, além de atrelá-lo a esquemas políticos pessoais”. O SNI afastava todos os que não se submetiam ao seu esquema, permitindo o surgimento da “figura oportunista” de um agente, oficial do Exército, “que havia prestado serviços ao sistema na contrainformação à guerrilha no sul do Pará, no final dos anos 70”.

A referência era ao coronel Sebastião Rodrigues de Moura, mais conhecido como Curió, ex-coordenador de Serra Pelada, eleito deputado federal pelo PDS do Pará.

Fonte: Arquivo Pessoal, 12/1985

O início da Transamazônica

A primeira etapa da construção da rodovia Transamazônica, entre Estreito e Itaituba, no Pará, foi iniciada em setembro de 1970, com duas frentes de serviço partindo dos dois pontos entremos para se juntarem no meio do percurso. Foram mobilizados seis mil trabalhadores nessa empreitada. A segunda etapa, de Itaituba a Humaitá, começou em março de 1971, em pleno período de chuvas fortes na região, o que dificultou muito o trabalho de fixação da linha base dessa segunda etapa da estrada.

Para dar apoio à construção foram abertos 12 campos de pouco ao longo do traçado. Pequenos aviões faziam voos diários entre os vários trechos, mantendo as comunicações, impossíveis por terra. Os aviões também levavam alimentos, mas a comida básica dos trabalhadores provinha de caça. Por isso, foram contratados caçadores da própria região.

A construção da estrada de processava em sete fases distintas: 1 – Abertura da linha base, que é a locação inicial do traçado; 2 – Desmatamento e derrubada, segundo a linha locada; 3 – Destocamento e limpeza de uma área de 70 metros de largura em toda a extensão da linha da estrada; 4 – Projeto topográfico; 5 – Terraplenagem; 6 – Caminho de serviço; e 7 – Revestimento primário, que é o encascalhamento da pista.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 01/07/1971