Padre expulso do Brasil

Em dezembro de 1976, o vigário de Vila Rondon, no Pará, padre Giuseppe Fontanella, foi expulso do Brasil. A acusação oficial apresentada era a de que se encontrava em situação irregular no país, mas o objetivo seria político: intimidar a ala da Igreja que se chocava com o governo.

Durante os oito anos em que esteve no Brasil, o padre tentou sem sucesso transformar seu visto de turista em autorização para morar no país. Depois de ser interrogado durante dois dias, por mais de 11 horas, no quartel da 8ª Região Militar do Exército, em Belém, por dois coronéis e um major, o padre recebeu prazo de três dias, posteriormente prorrogado para oito, para deixar o Brasil. Um agente da Polícia Federal o acompanhou de Belém ao Rio de Janeiro, de onde seguiu para a Europa.

Fonte: A Província do Pará (Belém), 01-01-1980.

Padre demente acusação à Igreja

Em novembro de 1976, o jornal Correio Braziliense publicou uma entrevista com o padre Florentino Maboni, na qual ele dizia que a Igreja da Amazônia estava infiltrada por esquerdistas e que sua pastoral era subversiva. Um mês depois, em carta enviada à Regional Norte II da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o padre, que já se encontrava na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, depois de permanecer um mês preso no Pará, esclareceu que as declarações publicadas na entrevista eram “um punhado de coisas truncadas e distorcidas que não refletem o que eu respondia nos vários interrogatórios e menos ainda o que penso”.

Informava ainda que haviam sido feitos “acréscimos de termos importantes e comprometedores, que eu não usei e jamais pensaria em acusar a Igreja como tal”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 01-01-1980.

 A subversão do capelão militar

O padre Florentino Maboni, enquadrado na Lei de Segurança Nacional sob a acusação de incitar posseiros a atacar tropa da Polícia Militar, havia sido distinguido na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, com a medalha do Pacificador pelos relevantes serviços prestados à guarnição militar ali sediada como radioamador.

De 1960, quando se ordenou sacerdote, até julho de 1976, quando foi transferido para Marabá, ele atuou em Santo Ângelo e Uruguaiana, na fronteira gaúcha, com “conduta irrepreensível”, conforme atestou o arcebispo de Porto Alegre, d. Vicente Scherer, de posição conservadora.

Sua transferência para Marabá tinha sido temporária, dentro do programa igrejas-irmãs. Em setembro, um mês antes de ser preso, ele foi para Conceição do Araguaia. ”

Fonte: O Liberal (Belém), 01-01-1980.

Um plano da ESG

Em março de 1990, a Escola Superior de Guerra divulgou a versão definitiva do documento “Estrutura de poder nacional para o ano 2001”, tendo como subtítulo “1990-2000: a década vital por um Brasil moderno e democrático”. Em três volumes, o documento era o resultado de 12 meses de trabalho, coordenado pelo professor Jayme Magrassi de Sá, com a participação de estagiários da escola e membros do seu corpo permanente.

Fonte : Folha de S. Paulo (SP), 29-08-1990

Os generais e a Amazônia

O jornal New York Times defendeu, em editorial publicado em fevereiro de 1989, a utilização de parte da dívida externa brasileira, calculada então em 115 bilhões de dólares, para impedir a continuação da destruição da floresta amazônica. Observou o periódico novaiorquino que o ministro do exterior, o ex-governador de São Paulo Abreu Sodré, aprovou a iniciativa, mas ela foi vetada pelo presidente José Sarney. O presidente estava empenhado em não permitir que a Amazônia se transformasse num “Golfo Pérsico verde”. Esses temores, segundo o jornal, “carecem de fundamento e foram elaborados pelos generais”.

Fonte : O Liberal (Belém), 4 de fevereiro de 1989

Terras com estrangeiros

Em sua edição de 22 de dezembro de 1967, a revista Time informou que nos últimos anos investidores estrangeiros haviam comprado mais terras no Brasil do que a soma de cinco Estados americanos (Delaware, Connecticut. Rhode Island, Massachussets e New Hampshire).

Dizia que alguns desses compradores de grandes áreas não passavam de especuladores, que adquiriam  terra de sete centavos o acre e as revendendiam por dois dólares. Mas que havia também verdadeiros investidores, como Henry Fuller, da cidade de Houston, “que possui meio milhão de acres cultivados e que pretende construir nas suas terras uma escola, uma igreja e uma cooperativa”.

A revista dizia que a disponibilidade de vastas extensões de terra na fronteira brasileira, sobretudo com a conclusão da rodovia Belém-Brasília, em 1966, estava atraindo especuladores da Alemanha, Japão, Estados Unidos e outros países, atraídos pela riqueza de alguns solos, como os de Goiás e da Bahia.

Mas que os proprietários se assustaram com a oposição a essas aquisições, criando pressão junto ao governo para suspendê-las, como ameaça à soberania nacional. O senador Marcelo Alencar, do MDB, assegurando que um terço do Brasil já estavam nas mãos de estrangeiros, propôs uma emenda constitucional para desencorajar futuros compradores.

Uma comissão federal de investigação havia recomendado a exigência de legitimação das vendas já efetuadas aos estrangeiros. Mas o governo brasileiro não parecia disposto a endossar essas mudanças.

Fonte: Folha do Norte (Belém/PA), 11/01/1968

A colonização da Amazônia

Estagiários da Escola Superior de Guerra percorreram, durante uma semana, oito mil quilômetros da Amazônia para avaliar a ofensiva que o governo estava então desencadeando para tirá-la do isolamento, integrá-la à economia brasileira e desenvolvê-la.

O motivador foi a seca no Nordeste em 1970, que emocionou o presidente Emílio Garrastazu Médici e o fez determinar um esforço concentrado do governo para a construção de duas estradas, a Transamazônica e a Santarém-Cuiabá, e um programa de colonização baseado na emigração de nordestinos para a Amazônia.

O ministro da agricultura, Cirne Lima, preparou um detalhado plano de colonização: cada trabalhador da estrada receberia um lote de 100 hectares, estabelecido em loteamentos que seriam abertos à margem da rodovia. Uma faixa com cinco quilômetros de profundidade a partir do leito da estrada seria reservada para proteção ecológica.

Em seguida, haveria uma “zona de influência”, com 100 quilômetros de extensão, na qual o governo estabeleceria projetos privados de colonização e agropecuária.

Agindo assim, o governo esperava acabar com “três séculos de abandono total”, segundo o comandante militar da Amazônia, general Nogueira da Paz: “nos restarão apenas três lustros para ocupar efetivamente a Amazônia, se quisermos ser donos da casa”, disse ele, criticando a pequena presença nacional na região.

O Pará possuía 1,2 milhão de quilômetros quadrados (“suas terras, de um modo geral, são férteis”) para apenas 1,2 milhão de habitantes, observava o ministro Cirne Lima. Roraima tinha um território maior do que o de seis Estados brasileiros para 48 mil habitantes.

Um importante papel catalisador nessa nova realidade iria ter o Exército, através dos seus batalhões de engenharia de construção. Em Roraima estava o 6º BEC, que, além de responsável pela ligação entre Boa Vista e Manaus, estava construindo cerca de mil casas.

Em Rondônia ficava o 5º BEC, que consolidou a BR-364, ligando Porto Velho a Cuiabá, mas também intervinha como conciliador entre garimpeiros e mineradores, construíra 400 casas e instalara o sistema de captação de água de Porto Velho.

Fonte: Veja (São Paulo/SP), 08/07/1970