O começo da Jari de Ludwig

Em outubro de 1967 o deputado federal Haroldo Veloso, da Arena do Pará, relator da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre terras de estrangeiros na Amazônia, comunicou ter recebido informações sobre a aquisição de dois milhões de hectares no vale do rio Jari, entre o Pará e o Amapá, pela empresa americana Bolt Carriers Co.

Embora não constasse nos arquivos do Ibra (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, antecessor do Incra) nenhum registro sobre a transferência de uma propriedade desse tamanho, moradores da região comunicaram ao parlamentar que a empresa realmente tinha se tornado dona dessas terras.

Ela as teria comprado a área em lotes menores ao longo de mais de um ano, até totalizar os dois milhões de hectares. A área era quatro vezes maior do que o então Estado da Guanabara. O DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral) considerava essa região promissora para diamante, ouro e cassiterita.

(Folha do Norte (Belém/PA), 31/10/67)

Líder sindical assassinado

Em novembro de 2000, o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará, José Dutra da Costa, de 43 anos, casado, maranhense, mais conhecido como Dezim, foi assassinado com seis tiros, no início da noite, quando caminhava por uma das ruas da sede do município, no Pará.

O assassino foi preso por populares quando tentava fugir e espancado, mas não chegou a ser identificado no momento da sua captura. Ele se recusava a falar e não tinha nenhum documento de identificação. Ainda com o revólver que usara, foi enquadrado em flagrante delito e mantido preso.

O crime foi associado ao apoio dado pelo dirigente sindical às 40 famílias que ocuparam as terras da fazenda Tulipa Negra.

(Diário do Pará, Belém/PA, 22/11/2000)

Mortes em conflitos de terra

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) entregou ao secretário de segurança pública do Pará, em junho de 1997, uma lista com os nomes de 629 pessoas assassinadas em consequência de conflitos fundiários no Estado, entre 1964 e 1995. Do rol, 196 das pessoas citadas não estavam com seus nomes completos.

Essa foi uma das dificuldades apontadas pelo secretário Paulo Sette Câmara para dar uma resposta à cobrança. Fatos mais remotos também seriam de difícil apuração. O secretário propôs a criação de uma comissão para averiguar os casos relatados pela CPT.

(Diário do Pará, Belém/PA, 05/06/1997)

Fazenda ocupada em Marabá

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) liderou 450 famílias na ocupação da Fazenda Cabeceiras, de 10 mil hectares, no município de Marabá, no Pará, em junho de 1999. Um mês depois os invasores deixaram a área, com a promessa do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de investigar a situação legal do imóvel.

Sem uma resposta, os sem-terra reocuparam a fazenda por mais duas semanas. Ao deixarem a sede, mantiveram-se num dos limites da propriedade, do fazendeiro Benedito Mutran. Em julho de 200 houve a terceira ocupação. O MST alegou que a área era improdutiva e a documentação do domínio, inconsistente.

(A Província do Pará, Belém/PA, 05/07/2000)

Conflito em seringal

Um juiz federal chegou a ameaçar recrutar tropa do Exército, em julho de 1976, para expulsar 300 posseiros que haviam ocupado o seringal Catuaba, no Acre. Os lavradores invadiram a gleba para tentar assegurar sua posse, mas a propriedade havia sido sequestrada pela justiça em 1974, para definir um litígio fundiário, a pedido da Procuradoria da República.

Na área, um posseiro, Raul, tinha matado a tiros de espingarda o gerente de um dos donos e aleijado um fiscal. Os posseiros acusaram a polícia de usar a violência para forçá-los a sair. Eles entraram no seringal Catuaba depois de terem abandonado outro seringal, o Panorama, que o Estado já havia comprado e loteado.

(O Estado de S. Paulo, São Paulo/SP, 28/07/1976)

Fazendeiro manda matar

A polícia de Mato Grosso prendeu, em julho de 1976, 37 posseiros acusados de assassinar um jagunço contratado pelo fazendeiro Satoshi Kurionagy, que se dizia proprietário da Gleba União. Nela viviam aproximadamente 200 famílias de lavradores, no município de Diamantino.

O bispo local, d. Henrique Froehlich, protestou junto ao presidente Ernesto Geisel. Argumentou que os posseiros estavam sendo expulsos mesmo tendo ganhado uma ação possessória na justiça.

(O Estado de S. Paulo, São Paulo/SP, 30/07/1976)

Fazendeiro e o Peace Corps

O fazendeiro Satoshi Kuryonagi foi destituído, em 1976, do cargo de representante da entidade religiosa Peace Corps (Corpos da Paz) por causa da perseguição que movia contra os posseiros da Gleba União, em Mato Grosso.

Documentos contra o fazendeiro foram encaminhados ao embaixador dos Estados Unidos no Brasil, John Crimmins, pela Prelazia de Diamantino, levando ao desligamento de Satoshi.

Ele também foi acusado de tentar subornar o juiz da comarca, Crestino Sisti, enviando-lhe uma garrafa de uísque na qual o líquido foi substituído por cédulas de dinheiro. Anteriormente, o fazendeiro teria dado mil alqueires de terra ao major Zuzi Alves da Silva, delegado-geral da polícia civil de Mato Grosso.

(O Estado de S. Paulo, São Paulo/SP, 24/11/1976)