Mortes em Itaipavas

O fazendeiro Neif Murad, proprietário de 50 mil hectares espalhados por seis fazendas no sul do Pará, foi assassinato em abril de 1985 com mais de 100 tiros e decapitado. Ele teria sido vítima dos próprios pistoleiros que contratara.

Uma semana antes, o fazendeiro pediu a intervenção policial para forçar seus empregados a explicarem porque não queriam trabalhar. Menos de um mês antes, alguns pistoleiros ligados a Murad tinham assassinado o comissário distrital de polícia de Itaipavas, Policarpo Pereira, e baleado o soldado Francisco Moreira Filho, apesar por terem sido advertidos pelos dois para não andarem armados pelo povoado.

Em 1984, a Polícia Federal constatara a presença de 46 trabalhadores mantidos na fazenda de Neif Murad em regime de escravidão. Alguns desses trabalhadores estavam amarrados quando a polícia chegou. Eles disseram que tinham sido obrigados a comer carne crua com sal e foram urinados pelos pistoleiros.

Ao enterrar o pai, o filho de Neif prometeu mandar matar Oneide Lima, viúva de Raimundo Ferreira Lima, conhecido como Gringo, assassinado em 1980 por pistoleiros de Neif. Ele era dono das fazendas Novo Mundo, Aldeia, São José, Cigana e lotes 7 e 8 do Loteamento Itaipavas, em São Geraldo do Araguaia.

Fonte : O Liberal (Belém), 30-04-1985.

Padre demente acusação à Igreja

Em novembro de 1976, o jornal Correio Braziliense publicou uma entrevista com o padre Florentino Maboni, na qual ele dizia que a Igreja da Amazônia estava infiltrada por esquerdistas e que sua pastoral era subversiva. Um mês depois, em carta enviada à Regional Norte II da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o padre, que já se encontrava na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, depois de permanecer um mês preso no Pará, esclareceu que as declarações publicadas na entrevista eram “um punhado de coisas truncadas e distorcidas que não refletem o que eu respondia nos vários interrogatórios e menos ainda o que penso”.

Informava ainda que haviam sido feitos “acréscimos de termos importantes e comprometedores, que eu não usei e jamais pensaria em acusar a Igreja como tal”.

Fonte: O Estado de S. Paulo (SP), 01-01-1980.

 A subversão do capelão militar

O padre Florentino Maboni, enquadrado na Lei de Segurança Nacional sob a acusação de incitar posseiros a atacar tropa da Polícia Militar, havia sido distinguido na Diocese de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, com a medalha do Pacificador pelos relevantes serviços prestados à guarnição militar ali sediada como radioamador.

De 1960, quando se ordenou sacerdote, até julho de 1976, quando foi transferido para Marabá, ele atuou em Santo Ângelo e Uruguaiana, na fronteira gaúcha, com “conduta irrepreensível”, conforme atestou o arcebispo de Porto Alegre, d. Vicente Scherer, de posição conservadora.

Sua transferência para Marabá tinha sido temporária, dentro do programa igrejas-irmãs. Em setembro, um mês antes de ser preso, ele foi para Conceição do Araguaia. ”

Fonte: O Liberal (Belém), 01-01-1980.

As terras da Jari

Em abril de 1991, a Companhia Florestal Monte Dourado, sucessora do milionário americano Daniel Ludwig no Projeto Jari, encaminhou correspondência ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) alegando ser proprietária de 421.595 hectares dos 450 mil hectares que constituíam a Reserva Extrativista do Cajari, criada no final do governo Sarney.

A reserva foi estabelecida no Amapá com o apoio de diversas entidades ecológicas internacionais e do Ibama. Um pouco antes, o instituto embargara o trecho final da estrada Macapá-Jari porque a responsável pela obra, a C. R. Almeida, não apresentou o Relatório de Impacto Ambiental.

Fonte : O Globo (RJ), 27-04-1991

Recorde de trabalho escravo

Em seu relatório anual, a Comissão Pastoral da Terra apontou 38 assassinatos em conflitos de terra no Brasil em 1992. Desse total, sete mortes foram cometidas no Pará e sete no Maranhão, na região conhecida como Bico do Papagaio, abrangendo o sul do Pará, o sudoeste do Maranhão e o norte de Tocantins, “a mais explosiva do país em termos agrários”, segundo a CPT. A comissão também constatou um número recorde de casos de trabalho escravo no país: foram 13.976 em 1992, com maior concentração nas carvoarias de Mato Grosso do Sul.

Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ), 03/01/1993

Pistoleiros de Josélio

Em 1995, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará acusou o fazendeiro capixaba Josélio Barros Carneiro de utilizar pelo menos uma de suas duas fazendas, às proximidades da rodovia Belém-Brasília, para encobrir assassinatos cometidos por pistoleiros a seu mando. Em uma dessas fazendas o delegado João Moraes, da Polícia Civil, encontrou várias ossadas.

O principal pistoleiro seria o mineiro Aldércio Nunes Leite, procurado em seu Estado de origem por vários crimes, entre os quais a matança de cinco pessoas, em 1990, que ficou conhecido como a chacina de Marcancheta.

Aldércio fugiu para o Pará, sendo contratado por Josélio, juntamente com outro pistoleiro, conhecido como Raí. Eles teriam praticado vários assassinatos nos municípios de Dom Eliseu e Rondon do Pará, onde ficam as fazendas Techagaú e Nova Délhi, de Josélio.

Fonte: O Liberal (Belém/PA), 06/07/1995

PM expulsa posseiros

Seis agricultores, um policial, e mais quatro pessoas ficaram feridas, durante um choque entre PMs e sem-terra na Gleba Sudoeste, no município de São Félix do Xingu, 900 quilômetros ao sul de Belém, no Pará. Mesmo sem mandado judicial, uma tropa da Polícia Militar foi à área para a retirada de lavradores, a pedido do fazendeiro Geraldo Ribeiro, que se declarava proprietário das terras.

Ele acusava os sem-terra de terem ultrapassado os limites do assentamento e penetrado em sua propriedade. A ocupação começara em julho de 1994, sendo considerada pelo governo do Estado como um exemplo de assentamento pacífico.

Fonte: O Estado de S. Paulo (São Paulo/SP), 30/06/1995